Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 2026

Crianças pobres do Jequitinhonha trocam trabalho pelos palcos do País

Quarta, 13 de Agosto de 2003 às 08:30, por: CdB

Músicas de Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Milton Nascimento e vários compositores mineiros, além de gêneros populares como catira, bateias, sapateados e batuque. Danças, cantos e esperança. No palco, 13 atores adultos e 36 crianças. Todas elas, moradoras do município de Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha. Em comum, o talento, a pobreza e a vontade de ter um futuro diferente da maioria das crianças da região, que acabam indo trabalhar no corte de cana-de-açúcar, como empregados domésticos, ou na prostituição.

Os pequenos artistas do grupo Meninos de Araçuaí já emocionaram todo o país com o espetáculo "Ser Minas Tão Gerais", parceria com o grupo teatral Ponto de Partida e o cantor Milton Nascimento. Agora, os meninos voltam aos palcos com seu novo show, "Santa Ceia".

No musical, os atores e as crianças interpretam por meio da dança. A fome e a pobreza mencionadas nas letras das canções são transpostas para cenas que mostram a autoridade e ignorância de pais, ou o trabalho pesado a que as crianças são submetidas. Apesar da mensagem forte, o espetáculo é alegre e colorido, com música ao vivo. "Santa Ceia" já foi apresentado em diversas cidades do interior de Minas e, na última semana, em Brasília. A turnê das crianças se encerra em Belo Horizonte, no dia 10 de setembro.

Nos bastidores, muita gente trabalha para garantir a elas comida e torná-las futuras cidadãs. O resultado é fruto da iniciativa e da junção do projeto Ser Criança, da organização não-governamental Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), do Ponto de Partida e de uma empresa patrocinadora.

O Ser Criança busca garantir às crianças atividades paralelas ao ensino regular e acredita no brinquedo como forma de aprendizado. Ao longo do dia, os meninos têm atividades como alternativa ao trabalho no corte de cana, destino de muitas delas. Parte do projeto educacional é desenvolvida em rodas, onde as crianças podem conversar sobre seus problemas.

Inicialmente, o projeto era apenas para os meninos até 14 anos. Para ampliar o trabalho, a idéia foi dividir o projeto em dois, o Sementinha (até nove anos) e o Ser Criança (10 a 17 anos). Hoje, os maiores têm até uma cooperativa, onde aprendem a usar a matéria-prima já existente no local - ferro, argila, sucata ou materiais recicláveis - na confecção de objetos, doces e obras de arte para comercialização. Todos os meninos ganham pelo menos um salário mínimo por mês, mas podem receber bem mais, de acordo com a venda dos seus trabalhos, feita individualmente.

A entidade ganhou, em 1995, o prêmio da Unicef como a melhor contribuição à escola brasileira. O trabalho é feito em parceria com a prefeitura local e atende mais de mil crianças, só em Araçuaí.

- Uma vez, após uma apresentação em São Paulo, uma das meninas me disse que ao cantar lembrou-se da irmã. Perguntei o porquê e ela me respondeu: '- Minha irmã quando veio aqui, veio para ser empregada doméstica, eu vim para ser artista - lembra Tião Rocha, presidente do CPCD.

Estréia de gente grande

O primeiro espetáculo teve status de veterano. "Ser Minas Tão Gerais" contou com a participação do cantor Milton Nascimento. Com o sucesso, gravaram um CD que em seu nome homenageia a técnica de roda utilizada nas atividades do projeto Ser Criança. "Roda que Rola" tem 33 faixas com várias canções mineiras, folclóricas e infantis. O disco vem em uma caixinha redonda, imitando embalagem de queijo mineiro.

"A gente aprendeu a mostrar que o Jequitinhonha é pobre de comida, mas de cultura não", conta Tarciza Rodrigues, de 12 anos ("com 'z' e não com 's'", lembra ela). Quando questionada sobre as oficinas, não perde tempo. "É muito bom, mas a hora de comer é muito melhor", diz. "O Vale não dá valor ao que fazemos. Pagam R$ 20 para ir a um forró, mas não pagam pra nos ver cantar. Quero mostrar o que podemos fazer por eles para que nunca esqueçam", desafia a menina.

Como continuação do

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