Na década passada, a população em idade ativa da Região Metropolitana de São Paulo cresceu cerca de 20%, enquanto a quantidade de ocupações assalariadas e autônomas expandiu apenas 10%. De cada dois jovens que ingressaram no mercado de trabalho nesse período, apenas um conseguiu se encaixar, ainda que em atividade precária. Esse cenário foi agravado pelo encolhimento de 10% nos empregos com carteira assinada - queda puxada particularmente pelo setor industrial, que cortou uma em cada cinco vagas existentes. A conseqüência óbvia dessas estatísticas é que o desemprego mais do que dobrou, passando de 686 mil no fim de 1990 para cerca de 1,5 milhão em 2000, segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) em parceria com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).
Nesse período, o contingente de trabalhadores assalariados sem carteira assinada mais do que dobrou, chegando a 1,1 milhão, e o de autônomos cresceu quase 60%, superando a marca de 1,6 milhão. Em 1990, o trabalho informal representava 30% das ocupações na Grande São Paulo. Foi a mais de 40%, em 2000, e essa proporção não se alterou substancialmente nem nos últimos cinco anos, quando o desemprego parou de acelerar e o volume de contratações com carteira assinada voltou a superar o de demissões, com o setor formal da economia absorvendo mais trabalhadores do que as ocupações precárias. Hoje, são mais de 3 milhões de ocupados na economia informal da maior metrópole do país. Somados a cerca de 1,6 milhão de desempregados, eles superam o contingente de assalariados do setor formal (3,5 milhões na iniciativa privada e 660 mil no serviço público).
Terceirização, criação de cooperativas, vendedores autônomos, prestadores de serviços pessoais, expansão de novas ocupações, como serviços de motoqueiros e telemarketing. O que deveria ser alternativa provisória para amenizar o desemprego, tornou-se atividade permanente, alterando a estrutura do mercado de trabalho.
- Houve perda dos melhores empregos e a expressiva tendência de deterioração continua, mesmo quando o emprego formal cresce. Viramos uma sociedade de serviçais - constata o economista Anselmo Luiz dos Santos, do Instituto de Economia da Unicamp. Essa nova realidade das metrópoles brasileiras, moldada pelas estratégias de sobrevivência à estagnação econômica, não tem perspectivas de se alterar nem com um nível mais forte e sustentado de crescimento da economia do país, na avaliação do economista Ladislau Dowbor, professor da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Ele observa que apenas 34 milhões de trabalhadores brasileiros possuem vínculos formais, sendo 27 milhões no setor privado e 7 milhões de funcionários públicos. Na outra face do mercado de trabalho, acomodam-se 93 milhões de autônomos, pequenos agricultores, trabalhadores da economia informal e ocupados em serviços precários. "As perspectivas não são boas para quem imagina a retomada do emprego industrial como forma de garantir postos de trabalho. Não há como absorver essa imensa massa de sub-utilizados que nós temos", sustenta Dowbor, que não considera realista a visão de que a crise do emprego no Brasil se resolve com a volta do crescimento da economia.
Para o professor da PUC-SP, essa sub-utilização da força de trabalho só poderá ser revertida se a geração de empregos se tornar o eixo estratégico do crescimento. Ao invés de ser encarada pelos formuladores da política econômica como uma conseqüência natural da expansão da economia, seja considerada o seu motor de arranque, a força indutora para criar o fluxo de demanda que colocaria em marcha um circulo virtuoso, no qual mais gente trabalhando consome mais produtos e serviços, aumentando a necessidade de produzir mais, o que amplia a oferta de melhores empregos.
- É preciso resgatar a produtividade do sistema de maneira mais ampla - aponta Dowbor.