Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2026

Crescimento brasileiro vai do pódio à lanterna em um século

Desde 1995, o PIB brasileiro cresceu em média 2,2% ao ano. No mesmo período, a média mundial chegou a 3,7%, e a das outras nações emergentes, a 4,9%. Antes, só ficava atrás de Formosa e Coréia do Sul. Consultoria culpa política monetária. (Leia Mais)

Terça, 09 de Março de 2004 às 06:07, por: CdB

Ao longo do século 20, o Brasil chegou ao terceiro lugar no pódio do crescimento econômico. O avanço do PIB (sigla para Produto Interno Bruto, ou seja, a soma do valor de todos os bens e serviços produzidos) chegou a 4,3% em média por ano, ficando atrás apenas de Formosa (5%) e Coréia do Sul (4,5%). Foram tempos de prosperidade que transformaram um país agrário e famoso por seu café em uma nação urbana, industrial e exportadora de aviões.

É outra a história que começa a ser escrita no século 21. Não faltam dados apontando que o Brasil travou em um estado de empobrecimento quando comparado a países semelhantes. Desde 1995, o PIB brasileiro cresceu em média 2,2% ao ano. No mesmo período, a média mundial chegou a 3,7%, e a das outras nações emergentes, a 4,9%. Os números, levantados pela consultoria Global Invest, revelam que o desempenho da economia brasileira desceu do pódio e pulou para o final da fila.

Veja os dados de 2003. Enquanto o PIB brasileiro recuou 0,2%, o do México cresceu 1,3%, da Malásia, 5,2%, da Rússia, 7,3%, da Argentina, 8,4%, e da China, 9,1%. Na vida real, esses dados se traduzem em mais desemprego, queda de renda e do padrão de vida das famílias brasileiras. Como explicar essa estagnação?

O economista Alexsandro Barbosa, da Global Invest, refuta de cara o velho argumento de que seguidas crises econômicas impedem que o país cresça de maneira sustentável. Segundo ele, os emergentes asiáticos, a Rússia e o México também passaram por graves abalos ao longo dos anos 90, mas nem por isso deixaram de apresentar recuperação nos anos seguintes. Aos dados. Em 1995, a economia mexicana despencou 6,2%, mas cresceu 5,2% em 1996 e 6,8% em 1997. No ano seguinte, foi a vez do PIB russo cair 4,9%, para avançar 5,4% em 1999 e 9% em 2000.

Descartada a opção "crise", Barbosa foca sua crítica no viés conservador da política monetária aplicada no país nos últimos anos, inclusive no governo do PT. Por esse viés, entendam-se juros altos para combater inflação. "Essa visão míope de política econômica fez o Brasil deixar de se beneficiar da gigantesca liquidez do mercado internacional em 2003", diz o economista. Ao longo do ano, a Bovespa bateu seguidos recordes, o risco-país caiu ao mais baixo patamar desde 1998, e as contas externas atingiram seu melhor nível em 11 anos.

Não é que Barbosa não se preocupe com a inflação. Ele defende que o processo de aceleração dos níveis de preços estabelecido entre o final de 2002 e início de 2003 justificou a decisão de subir a taxa de juros. No entanto, em maio de 2003 a taxa de inflação (IPCA) acumulada em 12 meses atingiu seu ápice do ano (17,2%) e, a partir daí, entrou em trajetória descendente, finalizando o ano em 9,3%. Esse cenário, diz o analista, justificaria a queda dos juros em maior magnitude antes de junho, quando se iniciou efetivamente o processo de queda das taxas.

Com esse atraso, o setor produtivo foi penalizado e conteve investimentos, derrubando os níveis de emprego e renda. "A inflação não pode ser a única referência. O Banco Central precisa olhar com mais atenção índices de renda, desemprego e investimento", defende Barbosa. Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária do BC reúne-se para discutir a taxa básica de juros (Selic). A aposta é que tudo ficará como está, em 16,5% ao ano.

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