Para os que gostam de ler o "mercado" e obedecê-lo, mas para todos em geral, o recado é claro: a economia internacional está em recessão profunda e prolongada. Não adianta lhe fazer afagos, porque não virá nada que se pareça a investimentos, empréstimos, incentivos à reativação econômica. Ao contrário. Se quiserem voltar a crescer, os países - especialmente os da periferia capitalista, como o nosso - têm de se apoiar na expansão do mercado interno.
A análise do economista conservador Martin Wolf no Financial Times desta semana é clara: todas as medidas monetárias dos bancos centrais de países centrais do capitalismo, a começar pelo Federal Reserve dos EUA, têm se mostrado ineficientes para reativar a economia desses países.
Como diz o relatório anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS, sigla em inglês): "O último ano foi marcado por decepções econômicas. Isso surpreendeu a muitos, dado o alto grau de estímulo monetário aplicado em grande parte do mundo. Na verdade, esse padrão de expectativas irrealizadas vem sendo a norma há pelo menos dois anos."
Pode-se apelar para causas precisas, dos escândalos de grandes empresas aos atentados de 2001, da crise argentina à guerra do Iraque, da pneumonia asiática a qualquer outro escândalo novo. Mas são apelos que Wolf considera "ladainhas desesperadas", diante do fenômeno central: a economia dos Estados Unidos, que havia sido sozinha a locomotiva do capitalismo mundial na década passada, esgotou seu combustível, sem que nenhuma outra economia assuma seu lugar.
Deu-se o que o economista marxista belga Ernest Mandal previa há tempos - a simultaneidade da crise nos três principais eixos do sistema capitalista mundial: EUA, Europa Ocidental e Japão. Qualquer análise que se faça da economia norte-americana conclui que a recessão veio para ficar e se instalou de maneira profunda naquele país, com todas as conseqüências internacionais que o peso dessa economia produz, pelo peso que assumiu.
A possibilidade de retomar o crescimento para os outros países é "gerar um crescimento da demanda bem acima do seu potencial". Porém, o próprio Wolf constata: "Mas essa mudança vem sendo reprimida, porque os governos impedem o movimento necessário das taxas de câmbio e porque as autoridades não estão promovendo a demanda doméstica". E ele conclui: "Se esse quadro não mudar, alguns poucos anos decepcionantes podem facilmente se tornar uma década desastrosa."
A contribuição brasileira para essa década desastrosa tem a ver diretamente com as taxas de juros reais estratosféricas que se continua a praticar. O recado é claro, para quem não está surdo à realidade: se quisermos crescer, só na direção do mercado interno, elevando o poder de compra da massa da população, redistribuindo renda, fazendo reforma tributária redistributiva, estendendo e não restringindo direitos sociais. Está nas mãos do governo, enquanto é tempo. Senão, tente-se dormir com uma taxa de juros dessas.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo) e "Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).