As camas destinadas a crianças de 3 e 4 anos foram substituídas por 10 berços que nunca ficam vazios. De um ano para cá, o abandono de bebês - alguns ainda com o cordão umbilical - mudou o perfil do abrigo municipal Casa de Passagem Ana Carolina, em Bonsucesso, que recebe meninos e meninas de até 4 anos de idade.
Desejados pela maioria das famílias que engrossam a fila de espera para a adoção e preferem crianças com menos de 1 ano, o número de bebês abandonados no Rio cresceu quase 50% de 2005 para o ano passado - pulando de 20 para 29 - e este ano já se igualou ao do ano passado, na Casa de Passagem.
— Tem muita rotatividade. Num mesmo dia, temos até dois chamados do juizado — conta a diretora do abrigo, Aline Peçanha Oliveira, que já recebeu bebês - quatro meninos para cada menina - deixados em hospitais, sacolas e até na lixeira. Quarta-feira passada, o abrigo tinha duas crianças de 1 ano de idade e outras oito com apenas meses de vida.
Para receber tantos rebentos - rejeitados pelas mães minutos, horas ou meses após o parto -, a instituição precisa, volta e meia, ocupar o berço de maternidade que serve como leito extra para as chegadas-surpresa.
— É um fenômeno na cidade. Tivemos que ampliar o espaço na Casa — afirma o secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia. O abrigo de quatro cômodos ganhou anexo, com sala de atendimento pediátrico e brinquedoteca.
Os que são abandonados quando bebês são fortes candidatos à adoção, já que não têm vínculo familiar estabelecido e recebem nome fantasia durante a estada na casa, que deve ser a mais breve possível. O período depende da duração do processo judicial de adoção.
Bebês vítimas de maus-tratos e abuso também são recebidos no abrigo. Marcadas pela violência, essas crianças são duplamente vítimas. O passado de abuso sexual tira boa parte das chances da adoção, já que esse tipo de biografia é rejeitado pela maioria das famílias que esperam um "filho do coração". A pequena C., de 1 ano e dois meses, tem Síndrome de Down e foi vítima de abuso.
No hospital público em que foi atendida, o estupro foi constatado e ela foi encaminhada para o abrigo de Bonsucesso. Lá, a menina e a família recebem tratamento médico e psicossocial. — Há uma negociação rígida para ver se há condições de voltar para a família. Temos que proteger essa criança. É possível que nossa equipe indique C. ao juizado para adoção — diz Garcia. Com seu histórico, no entanto, a menina tem chances mínimas de ser escolhida por uma família adotiva.
Pobreza não é motivo de abandono
A pobreza não é a principal razão para que parturientes andem na contramão do mito do instinto materno e rejeitem - às vezes de forma criminosa - aquele que é tido como símbolo do amor incondicional, o filho. Apesar de a maioria das mulheres que abandonam seus rebentos ser pobre, elas representam um número mínimo entre a população feminina de baixa renda. — Quase 100% das mulheres pobres assumem a maternidade — observa o secretário Marcelo Garcia.
Psicóloga do abrigo A Minha Casa, em Campo Grande, Bárbara Cristina Bittencourt diz que muitos pais abandonam seus filhos devido a transtornos mentais, alcoolismo e drogas. Depois que surgiram os programas de bolsas sociais, são raros os casos em que a pobreza motivou o abandono, acrescenta.
A Secretaria Municipal de Assistência Social apura as razões para o aumento de abandonos de bebês no Rio. — Isso tem ocorrido também em Minas Gerais e no Recife. Estamos investigando —diz Marcelo Garcia.
Principais vítimas da situação, as crianças sofrem as conseqüências às vezes para o resto da vida. Entre os possíveis efeitos da rejeição, observa a psicóloga Bárbara, está o transtorno bipolar (psicose maníaco-depressiva).
Abandonar um bebê não é crime e está previsto no Estatudo da Criança e do Adolescente. Com o alerta, a promotora da Assessoria de Direito Públ