A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que analisa os gastos do governo federal com cartões corporativos e contas tipo B está com seus dias contados. A razão do fracasso seria a falta de consistência nas denúncias formuladas e a dificuldade em se apurar os dados disponibilizados pela Casa Civil, aliadas à "intransigência da base aliada em não permitir a convocação para depoimentos de pessoas ligadas à Presidência da República e a requisição de documentos considerados sigilosos", segundo afirmou a CPMI, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS).
As circunstâncias que cercam esta CPMI se agravam com acusações de parte dos governistas, de que a manipulação dos dados relativos aos gastos da Presidência da República, na gestão FHC, foi uma iniciativa do próprio PSDB, na tentativa de promover uma "chantagem política", como alegou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na terça-feira. O senador tucano Álvaro Dias (PR), acusado de manusear e divulgar os dados sigilosos colhidos pela Casa Civil para a formação de um relatório sobre as contas da Presidência, recusou-se nesta sexta-feira a fornecer à Polícia Federal qualquer indício que permitisse aos policiais chegar à fonte do crime.
Dias reafirmou que não tem de revelar o nome da pessoa que lhe passou as informações, com base na Constituição (artigo 53, parágrafo 6º), ao alegar que os parlamentares não são obrigados a testemunhar sobre informações recebidas em razão do exercício do mandato nem sobre as pessoas que lhe confiaram as informações. A base aliada, no entanto, acredita que seria um dever ético do parlamentar a indicação dos criminosos que, após ter acesso aos dados sigilosos constantes de um banco de dados do governo, vazaram as informações para a imprensa. Algumas destas informações são protegidas por significar risco à segurança nacional, segundo alertou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em comunicado divulgado no início da semana.
A líder do governo no Senado, Ideli Salvati (PT-SC), questionou no plenário da CPMI dos Cartões sobre as declarações de que teve acesso ao suposto dossiê. O blog do jornalista Ricardo Noblat divulgou, na véspera, que o senador paranaense teria sido a fonte das informações de matéria da revista Veja sobre o assunto. Dias citou em sua defesa, no entanto, uma coluna da prória Veja, no qual o jornalista Reinaldo Azevedo afirma que o senador "não é 'a' fonte da revista" e, se fosse, não teria agido sozinho.
Como forma de pressionar a CPMI para que exigisse de Álvaro Dias "uma decisão ética", disse Salvati, os governistas optaram por manter uma política de obstrução ao impedir que nove pessoas, oito delas funcionários da Presidência da República, fossem convocadas a depor. A tática vai continuar, disse na manhã desta sexta a senadora paranaense. Já a presidente da Comissão, Marisa Serrano, reforçou a decisão de, semana que vem, reunir-se com o relator da CPMI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), e com o primeiro vice-presidente, deputado Marcelo Melo (PMDB-GO), para decidir os rumos dos trabalhos. A decisão mais provável é colocar um fim nos trabalhos, sem um relatório conclusivo.
Muito barulho por nada
Desde o início, a CPMI dos Cartões Corporativos foi marcada pelo descrédito. A ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Roussef, que participou nesta sexta-feira da 52ª Reunião Geral da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), em Niterói, no Estado do Rio, questionada sobre o dossiê vazado para a mídia, disse com todas as letras: "Tenho mais o que fazer". Convocada a discorrer sobre o andamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no Congresso, Dilma evitará qualquer comentário sobre os gastos realizados por autoridades federais nos cartões de crédito corporativos a que têm direito.
No plenário da CPMI, ao longo da semana, as reuniões foram marcadas pela intensa troca de acusações entre governistas e oposicionistas p