O presidente Barack Obama advertiu seu Congresso que, se não chegar a um acordo para elevar o teto da dívida americana, hoje orçada em US$ 14,3 trilhões, a economia global corre o risco de uma nova crise financeira. O teto foi atingido em maio e o Tesouro norte-americano vem tomando medidas adicionais para estender o prazo até 2 de agosto, sem ter que recorrer à venda de títulos para manter as contas em dia.
José Carlos de Assis, doutor em Engenharia de Produção e professor de Economia Internacional da Universidade Estadual da Paraíba, em depoimento exclusivo para este blog, denuncia que a pressão dos Republicanos sobre Obama é injustificável,inócua e, pior, perigosa para os países emergentes. “Não votar o orçamento é apenas para embaraçar Obama”, ressalta.Indiretamente, esse tipo de medida contribuirá para aumentar o movimento - já em curso - dos países industrializados, de promover um verdadeiro dumping de produtos de sua manufatura sobre os emergentes. A conferir.
Segundo Assis, por serem os emissores da moeda mundial, os Estados Unidos podem suportar uma dívida maior. “Ao contrário, o que o Congresso deveria estar fazendo é aprovar a retomada de medidas de estímulo fiscal para reaquecer a economia norte-americana”, afirma. O professor ressalta que o crescimento anualizado do primeiro trimestre do PIB dos Estados Unidos registrou uma variação positiva de apenas 1,8%. “É muito pouco, principalmente diante da taxa de desemprego, que voltou a crescer e hoje bate em 9,1%”, frisa.
Receita errada
Para o professor, o mais grave da obsessão dos Republicanos em diminuir o déficit e cortar a dívida – tendo como argumento que seriam os remédios para garantir o crescimento da economia – é que a receita estaria completamente equivocada.
De acordo com Assis, há no horizonte norte-americano um problema expressivamente maior que o tamanho de sua dívida: o sistema financeiro. Ele informa que US$ 6 trilhões de hipotecas imobiliárias devem vencer no médio prazo. Destas, US$ 3,5 trilhões são de recebimento duvidoso. Outro US$ 1,5 trilhão está classificado como “perda certa”. “Para os bancos enfrentarem esses prejuízos a serem em breve contabilizados, precisam formar um estoque de lucro no curto prazo”, conta. E buscam saída no mercado de câmbio. “Eles operam por dia US$ 4 trilhões. Com esse volume, qualquer taxa de administração é lucro certo, sem riscos”.
Por trás disso, os bancos também operam o que Assis chama de arbitragem de títulos públicos. Tomam dinheiro do Federal Reserve Bank (FED) a 0,025% ao ano e aplicam em títulos públicos norte-americanos a 3,5% ao ano.
Essas operações são o filet mignon do mercado financeiro - que secou seus empréstimos às pequenas e médias empresas, responsáveis por 65% do emprego no país. “Como os pequenos negócios estão sem recursos, não empregam. E daí a taxa de emprego não cresce”, explica.
A única saída é exportar
“A retomada do crescimento nos EUA tem pouco a ver com o corte do déficit público norte-americano”, ressalta. Para ele, a insistência nesse caminho deixa Obama sem perspectivas. “Só lhe resta tentar incentivar o crescimento por meio de um aumento expressivo das exportações”, comenta. Não foi por outro motivo que o presidente foi obrigado a colocar como meta dobrar as vendas ao exterior até 2014.
De acordo com Assis, o movimento também se repete na Comunidade Europeia. “Temos uma Europa inteira fazendo ajuste fiscal. Diminuindo gastos públicos para gerar excedentes exportáveis. Da mesma forma, o Japão está reorientando suas exportações – que iam para o mundo desenvolvido – para os países emergentes”, enumera o professor.
A tendência, portanto, é que todos os países aumentem e reorientem suas exportações para os emergentes, Brasil incluído. “Está enganado quem acha que a China sozinha vai dar conta de importar de todo o resto do mundo”, afirmou. A conta é simples. O PIB da China é de US$ 5,5 trilhões. Mas os países industrialmente desenvolvidos – Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia – somam um PIB de US$ 37 trilhões. “É ilusão achar que uma economia de US$ 5,5 trilhões vai dar conta das exportações de um conjunto de países que somam US$ 37 trilhões”, argumenta.
Dumping em escala global
Para o professor, o virá por aí é uma onda de dumping mundial sobre os emergentes. “Isso vai fazer o nosso atual problema de câmbio parecer fichinha”, garante. Há uma nova ordem mundial, com uma nova divisão internacional do trabalho. “A se confirmar essa lógica, ao Brasil sobrará apenas a produção e exportação de commodities”, adverte.
Para o professor, nesse quadro, o Brasil só tem uma saída, se quiser defender o seu mercado e a sua indústria: construir e fortalecer um bloco econômico sul-americano.
Assis argumenta que dificuldades econômicas nos Estados Unidos são um problema mundial. O país ainda deteria 25% da manufatura global. “Quando os EUA vão mal, há impactos por todo o mundo”, advertiu.
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