A crítica mais ampla feita ao Ministério da Fazenda pelo economista Márcio Pochmann em seu documento "Evidências recentes na relação entre gasto social e desigualdade de renda no Brasil" é a de que a política econômica produziu uma queda de renda e um corte no orçamento social do governo que, somados, apagaram os ganhos dos programas de transferência de renda, como Bolsa Escola e Bolsa Família. Pochmann elogia o esforço do governo em fazer um ajuste fiscal para conter a dívida. Mas, afirma que essa decisão traz um efeito colateral.
- Se, de um lado, o esforço fiscal contribuiu para evitar a ampliação do endividamento público, de outro, passou a constituir um verdadeiro entrave para ao atendimento da dívida social do país - afirma, em seu documento, o economista da Universidade de Campinas (Unicamp).
Pochmann atribuiu ao ajuste fiscal e juros altos o crescimento econômico do país, que classifica de "ridículo, (...) quando comparado ao período de 1930 a 1980, com taxas de 7% médias anuais". Para ele, esse baixo crescimento gera poucos empregos e reduz o poder de compra do trabalhador.
Entre 2001 e 2004, o número de empregos criados foi menor que o de pessoas que ingressaram no mercado de trabalho. "O ritmo de abertura de vagas foi de 2,5% ao ano (7,8% abaixo da expansão da População Economicamente Ativa)", mostra Pochmann. Resultando em "cerca de 376 mil novos desempregados" em média, por ano.
A perda de poder de compra, somado ao aumento do desemprego, fez com que caísse a participação da renda do trabalhador no Produto Interno Bruto (PIB). Pelos cálculos de Pochmann, essa queda representou um valor de R$ 19,3 bilhões entre 2001 e 2004. Isso se somou a uma perda estimada em R$ 9,9 billhões no orçamento social do governo. O resultado é que, mesmo uma expansão estimada de R$ 13,1 bilhões nos programas públicos de transferência de renda "terminou sendo insuficiente para compensar o esvaziamento de R$ 29,2 bilhões" (queda de renda dos trabalhadores mais queda do orçamento social).
A resposta do secretário de Política Econômica da Fazenda, Marcos Lisboa, a Pochmann, divulgada ontem, questiona o cálculo que o economista da Universidade de Campinas faz em relação a uma suposta redução do orçamento social do governo federal. O documento de Lisboa não questiona os cálculos de Pochmann sobre a queda de renda dos trabalhadores.
Cortes e queda de renda anulam efeito da transferência de renda
Sexta, 13 de Maio de 2005 às 09:25, por: CdB