Cortes de direitos sociais na Catalunha leva indignados de volta às ruasMilhares de pessoas tomaram as ruas de Barcelona nesta semana em protesto contra o corte de direitos sociais aprovados pelos deputados da Catalunha na última quarta-feira. A mobilização, organizada pelo 15-M, abrangeu ações descentralizadas em diferentes comunidades e bairros da cidade. Neste sábado, a Marcha Popular Indignada do 15-M, que completa 29 dias nas estradas da Espanha, por onde passa recolhendo reivindicações de diferentes comunidades, chega a Madri, e uma grande manifestação contra o corte de direitos sociais, posto em prática pelo governo espanhol, será realizada no domingo. A reportagem é de Fabíola Munhoz, direto de Barcelona
Fabíola Munhoz - Direto de Barcelona, Especial para Carta Maior
Na quarta e quinta-feira, o povo voltou a tomar as ruas de Barcelona, em protesto contra o corte de direitos sociais previsto no novo orçamento do governo regional catalão. Esses cortes foram aprovados pelos deputados da Catalunha na última quarta-feira, embora a população, nessa mesma data, tenha manifestado sua insatisfação com tais políticas de austeridade econômica, fazendo uma grande passeata, desde a Praça Catalunha até a sede do Parlamento, que fica no Parc de la Ciutadella, passando antes pela Bolsa de Valores.
A mobilização do dia 20, organizada pelo 15-M, abrangeu ações descentralizadas em diferentes povos e bairros de Barcelona, desde a manhã, e teve como ápice a manifestação iniciada na Praça Catalunha às 19h00. A caminhada contou com a presença de 30 mil pessoas, segundo informações do movimento. Os participantes, em sua grande maioria, jovens e idosos aposentados, gritavam em coro frases, como: “Mãos para cima, isso é um assalto”, e “Não há pão para tanto chorizo”, enquanto desciam a Via Laietânia, que conecta o centro gótico da cidade ao porto, rumo à sede do Legislativo.
Chegando diante de uma das entradas para o Parc de la Ciutadella, na altura da rua Marquês de la Argentera, os “indignados” se depararam com um forte cordão policial, que impedia qualquer tentativa de aproximação do Parlamento. Assim, sem outra opção, os manifestantes, que traziam, dentre outros cartazes, uma faixa grande, onde se lia “A rua é nossa. Não pagaremos sua crise”, sentaram-se sobre o asfalto para realizar uma Assembleia Geral em meio ao passeio público.
Nesse encontro improvisado, os participantes definiram novas ações e planejaram outros protestos para o dia seguinte. E, de acordo com o consenso estabelecido dessa maneira, no dia 21, os integrantes do 15-M levaram a cabo uma jornada de mobilizações em defesa das saúdes pública e privada da Catalunha, acompanhada de uma folga do transporte sanitário municipal. Esse esforço conjunto por denunciar o corte de recursos públicos e demissões relacionados com o atendimento sanitário, aconteceu em paralelo a uma acampada atualmente realizada frente ao Hospital Dos de Maig, cujo fechamento foi anunciado para o mês de setembro. Os protestos consistiram no corte dos acessos ao centro de Barcelona pelas avenidas Diagonal e Meridiana.
A primeira dessas vias foi esvaziada pelos policiais da Esquadra sem violência, porém, de maneira coercitiva. Já na segunda, os indignados foram reprimidos de maneira mais rígida por agentes da Polícia sem identificação.
A massa de pessoas reunida nesses pontos foi crescendo quantitaficamente, enquanto se dirigia até o Hospital del Mar, para onde estava prevista a realização de um grande protesto contra a aprovação de um ERE (Expediente de Regulação de Emprego), que levará diversos trabalhadores dessa entidade ao desemprego.
As primeiras 50 pessoas que rumaram à estação de metrô Ciutadella - Vila Olímpica, com o objetivo de chegar ao hospital, foram paradas por agentes antidistúrbios e policiais à paisana, que lhes impediram a passagem enquanto pediam sua identificação. Essa ação policial durou cerca de uma hora.
O movimento 15-M, no blog da Acampada Barcelona, denuncia que, nessa ocasião, as autoridades policiais infringiram direitos fundamentais, como a liberdade de movimento e livre circulação, a liberdade de expressão e o direito à reunião, garantidos pela Lei Orgânica 1/1992, de 21 de fevereiro, de Proteção à Segurança Cidadã.
Embora em tal situação tensa tenham ocorrido agressões físicas leves, não foi indicado até agora o número de feridos resultante das manifestações desses dois dias. Tampouco houve detenções, de maneira que os protestos apresentaram saldo negativo relacionado unicamente com as identificações de 122 indignados (45 na Via Meridiana e 77 na estação de metrô mencionada).
Os identificados foram parados pelos agentes policiais de maneira arbitrária, sob o argumento de que o 15-M não havia comunicado oficialmente a realização dos protestos. Outra justificativa dada pela Polícia para essa ação foi a de que os manifestantes teriam produzido “danos materiais” no centro de Barcelona.
Essa maneira de atuar das forças do Estado, embora menos violenta que a observada em outros confrontos com os indignados de Barcelona, continuam a representar um atentado à livre comunicação dos cidadãos. Esses fatos se observaram um dia após a aprovação da retalhada de serviços públicos na Catalunha, enquanto Merkel e Sarkozy debatem maneiras de seguir resgatando falsamente a zona do euro. Como se não bastasse, simultanemente, o Congresso espanhol aprovou a extensão da idade mínima para aposentadoria aos 67 anos.
O contexto de continuidade e acirramento da predileção dos governos europeus pelos interesses de banqueiros e empresários, em detrimento do bem-estar dos cidadãos, revela o desespero dos ocupantes de cargos públicos desse continente por se safar dos impactos negativos da crise financeira. Ontem, os líderes de 17 países da eurozona firmaram em Bruxelas um acordo para salvar sua moeda comum, ameaçada diante da expectativa de contágio da falência grega às economias italiana e espanhola.
Foi decidido um segundo resgate financeiro à Grécia, no valor de 109 bilhões de euros. Esse auxílio inclui participação de recursos do FMI em um terço do total de dinheiro aplicado. Tais medidas não só mantêm o aprisionamento das administrações públicas grega e espanhola pelo sistema financeiro global, como fortalecem o poder de influência das agências de qualificação de risco nos rumos da política internacional.
Afinal, mesmo após essa segunda ajuda à economia grega (a primeira havia sido de 110 bilhões em maio), que obrigou o governo da Grécia ao corte de gastos públicos, a agência qualificadora de riscos Fitch alertou hoje que esse novo resgate mantém o país mediterrâneo em situação de "não-pagador restringido”. A agência justifica essa qualificação, informando que enquanto continue a troca da dívida grega em circulação por novos títulos, e os originais não sejam pagos, em devidos tempo e forma, a nota de solvência de Atenas poderá seguir rebaixada.
Constata-se que esse contexto de promessas de recuperação econômica vem acompanhado de desilusões inevitáveis quando as soluções não afetam a raiz dos problemas. E tais inverdades disseminadas por interesse dos mercados, e bombardeadas diariamente pelos jornais contrastam-se com a voz de indignação do povo nas ruas. Neste sábado (23), a Marcha Popular Indignada do 15-M, que completa 29 dias nas estradas da Espanha, por onde passa recolhendo reivindicações de diferentes comunidades, chega a Madrid, e uma grande manifestação contra o corte de direitos sociais, posto em prática pelo governo espanhol, é esperada para este domingo. É sinal de que a população ainda não se cansou de lutar por uma democracia de fato, embora até agora nenhuma de suas reclamações tenha sido escutada pelos governantes.
(*) Advogada, jornalista e mestranda em Comunicação e Educação
Fotos: Blog Acampanha BCN