Rio de Janeiro, 19 de Maio de 2026

Corrupção capital

Como existem os "pecados capitais", de onde brotam os pecados pessoais, assim também existe a "corrupção capital", geradora de muitas corrupções derivadas e conseqüentes. A palavra "capital", no contexto da corrupção costuma aparecer em forma substantiva. Na verdade, "o capital" tem um potencial inato de corrupção. (Leia Mais)

Sexta, 01 de Julho de 2005 às 17:10, por: CdB

Como existem os  "pecados capitais", de onde brotam os pecados pessoais, assim também existe a "corrupção capital", geradora de muitas corrupções derivadas e conseqüentes. A palavra "capital", no contexto da corrupção costuma aparecer em forma substantiva. Na verdade, "o capital" tem um potencial inato de corrupção. Mas a palavra aparece também em forma adjetiva, qualificando as raízes da corrupção. Assim, existem "corrupções capitais", capazes de suscitar muitos atos de corrupção concreta.

Essencialmente, corromper é desvirtuar as finalidades, é inverter os valores, é tornar mau o que em princípio deveria ser bom.

A primeira corrupção capital é praticada pelo sistema econômico mundial. Ele corrompe o Estado, colocando-o a serviço das multinacionais. Desta maneira, o Estado fica impedido de direcionar a economia para o bem comum.

Esta corrupção do Estado se faz de diversas maneiras. Primeiro, diminuindo o Estado ao seu tamanho mínimo, para que seja fraco e submisso aos interesses maiores das transnacionais.

Depois, minando as responsabilidades do Estado através de privatizações de setores que mais possuem incidência econômica, sob a falsa alegação de que não cabe ao Estado lidar com economia.

Se o sistema esbarra na consciência das pessoas, ele parte direto para o suborno. Fica-se sabendo, por exemplo,  que determinada obra é a "usina dos dez por cento", tal a propina levada por quem mediou a compra das turbinas.  Com isto, propaga-se a cultura da corrupção, como se ela fizesse parte da engrenagem natural da economia.

É sobretudo este mau exemplo vindo do funcionamento do sistema econômico mundial que difunde a mentalidade de que corromper pessoas faz parte do próprio processo político e econômico. O neo liberalismo, que reduz a finalidade do Estado à função de suporte jurídico dos contratos, é o maior patrocinador da prática da corrupção, envolvendo esferas públicas e privadas.

As licitações são terreno propício para o concubinato entre empresários particulares e funcionários públicos. Muitos atos de corrupção nascem desta promiscuidade de interesses particulares, em detrimento do interesse público.

Mas existem outras corrupções capitais, com suas respectivas corrupções derivadas.

O político populista corrompe as expectativas da gente simples, com a falsa promessa de que ele vai resolver os problemas. Assim a participação da cidadania fica desvirtuada  e impedida de atuar.

O messianismo corrompe a religiosidade do povo, tirando-lhe a energia positiva que ela possui, colocando-a a serviço da promoção pessoal. A mistura de religião com a política propicia muitas corrupções, tanto piores quanto mais revestidas de motivações transcendentais.

O político oportunista se elege para encontrar abrigo para suas trapaças na imunidade parlamentar. Corrompe para ser eleito e corrompe depois com mais segurança.

As "emendas no orçamento", pelas quais os congressistas dispõem de determinadas quantias para distribuir à sua clientela, corrompem a finalidade do Legislativo, e viciam o relacionamento com o Executivo, fazendo os parlamentares parecerem um bando de chupins abrigados em ninho alheio, prontos para um grande alarido quando alarmados por alguma CPI.

É por estes caminhos que a corrupção vai  se infiltrando na mentalidade e na prática política e econômica.

A inversão desta tendência exige uma atenção contínua e uma firme disposição de pautar a conduta por critérios éticos, repelindo com firmeza toda cumplicidade ou conivência com atos ilícitos.

Contra a corrupção capital, a vigilância radical, a denúncia firme, e o testemunho de coerência ética!

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