O governo brasileiro aceitou o pedido de retratação do correspondente do The New York Times no Brasil, autor de reportagem sobre o suposto envolvimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com bebidas alcoólicas. Segundo a Assessoria de Imprensa do Palácio do Planalto, houve um pedido de desculpas formal e o presidente aceitou a retratação (Leia a íntegra do documento). Com o pedido o governo voltou atrás na decisão de suspender o visto de permanência no Brasil do correspondente.
- O jornalista disse que não teve a intenção de ofender o presidente e que lamenta se causou algum transtorno - disse a jornalistas o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, em São Paulo.
- O presidente considera o caso com o jornalista encerrado - acrescentou o ministro. Essa era a condição do presidente Lula para revogar a medida tomada na terça-feira.
Na carta, assinada por três advogados e endereçada ao ministro da Justiça, Rohter declara "jamais ter tido a intenção de ofender a honra do senhor presidente da República" e que "o artigo não contém juízo de valor".
O desfecho é uma vitória do ministro Bastos, que atuou pessoalmente no caso e negociou a carta com o NYT.
O Superior Tribunal de Justiça havia concedido na quinta-feira medida liminar dando salvo-conduto ao jornalista. O ministro Francisco Peçanha Martins, do STJ, afirmou que a decisão do Palácio do Planalto faz cessar o processo que se encontrava em curso.
Rohter é autor de reportagem publicada no domingo no NYT, afirmando que o presidente estaria abusando de bebidas alcoólicas, o que seria uma "preocupação nacional".
O cancelamento do visto do jornalista foi a reação mais extrema do governo Lula. Antes disso, ainda no domingo, uma nota do porta-voz da Presidência classificou a reportagem de "ofensiva" e "caluniosa". Afirmou também que o jornalista havia inventado a suposta "preocupação nacional" sobre os hábitos do presidente. A notícia chegou a ser classificada de imprensa marrom pelo porta-voz.
Pelo teor da reportagem, o presidente recebeu a solidariedade de políticos, inclusive da oposição, e de integrantes da sociedade civil, mas a decisão de cancelar o visto do jornalista reverteu as reações. O gesto foi classificado de exagerado, extremado e até de ditatorial.
"A retratação mostra que o governo tomou a decisão acertada e saiu vitorioso. O Brasil sai do episódio respeitado", disse o presidente do PT, José Genoino.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) elogiou a revogação da medida, destacando o papel do ministro da Justiça.
"Um erro não pode ser reparado por um erro maior. Caberia ao jornalista do New York Times observar os princípios éticos ao escrever a reportagem. E caberia ao governo serenidade para repeli-la de forma altiva e soberana".
Para os jornalistas que atuam no país, porém, o caso deve deixar marcas. Essa é a opinião da presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em São Paulo, Verónica Goyzueta.
"É bom que o caso tenha se encerrado. Mas essa atitude do governo criou um desgaste na imagem do governo, na imagem do presidente. Infelizmente essa história não vai ser esquecida. Ela vai ficar na memória de todo mundo, a imprensa estrangeira, da imprensa nacional", afirmou.
O analista político Carlos Pio também considera que "essas coisas deixam marcas". "É um episódio muito ruim. Mostra que o presidente ignorou parcela da Constituição".
O deputado Renato Casagrande, líder do PSB na Câmara, vê um saldo negativo no episódio. "Eu acho que a decisão qualquer que seja é muito ruim, o saldo é muito negativo. A suspensão da suspensão tem um desfecho que é ruim, mas reconheço que é um gesto nobre do Lula, que reconheceu seu erro."
Já o cardiologista Roberto Kalil, médico pessoal de Lula há dez anos, disse ter ficado satisfeito com o desfecho do caso, pois considera que o presidente não tem