O diário inglês especializado em economia Financial Times publica, em sua edição deste domingo, um extenso ensaio fotográfico do correspondente no país, Jonathan Wheatley, que empreendeu uma viagem ao "Arco de Fogo" da região amazônica. Intitulado "No limite da destruição", o acervo mostra a fronteira entre a selva e as áreas sistematicamente devastadas por fazendeiros. Nas áreas de cerrado e cerradão, segundo o correspondente, ao sul da Amazônia, a vegetação "é essencial para a proteção da floresta ao norte e seus mananciais".
"Mas, no último meio-século, a devastação tem sido contabilizada em volumes exponenciais", diz a matéria. Apenas um produtor rural da região, identificado apenas como Carlito, "abriu uma clareira de 90 mil hectares".
- No passado, se você cortava mil hectares de árvores, o governo lhe dava mais mil - disse Carlito ao repórter.
Mas os tempos estão mudando, de acordo com a perspectiva do correspondente inglês. Os governos federal e estadual têm determinado novas políticas voltadas ao combate à erosão, da diminuição das chuvas e das queimadas, no sentido de preservar o que sobrou da Amazônia. "Mas uma coisa é fazer novas leis, outra é fazer cumpri-las", acrescenta o jornalista.
Em Mato Grosso, as leis são cumpridas de "forma inusitada", diz Wheatley. Na fazenda do rancheiro norte-americano John Carter - que migrou do Texas para aquele Estado brasileiro e há 12 anos cria gado - o problema do relacionamento com as tribos indígenas, que ali coexistem com os brancos, foi resolvido de maneira peculiar. Os índios, diz a matéria, "roubavam o gado do Carter e ele preferiu chamar para si o problema, deixando de lado a relutante força policial local".
- Ele (Carter) procurou o chefe da tribo local e lhe ofereceu um acordo: Ele receberia 100 cabeças de gado se os habitantes da sua aldeia deixassem de lado a pilhagem. Deu certo - conta.
A matéria segue em uma crítica à ocupação das terras do fazendeiro norte-americano por famílias de sem-terra que, a uma hora de carro da sede do rancho, cerca de 40 quilômetros dentro dos limites da fazenda, um acampamento abriga cerca de 3,5 mil habitantes que, apesar das dificuldades, erguem suas casas, escolas e supermercados. Fora os índios e os sem-terra, o estrangeiro radicado na Amazônia brasileira também aponta as queimadas como um dos riscos à floresta e aos seus lucros.
"Carter acredita que as forças de mercado vão fazer um trabalho melhor do que o apoio, sem qualquer efetividade, do governo para se preservar a Amazônia", diz o repórter do FT.
A atuação do fazendeiro norte-americano também passa pelos cartórios da região. Em 2004, Carter iniciou a formação de um grupo de fazendeiros chamado Aliança da Terra, que cuida do registro das terras para quem vai criar gado ou plantar soja "demonstrando o que eles devem fazer de certo e o que está indo no caminho errado". O produto que conta com o selo desse grupo tem um trânsito melhor nos mercados norte-americano e europeu, completa o repórter.