Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Correntes monetarista e heterodoxa se enfrentam até hoje

Sexta, 30 de Abril de 2010 às 10:01, por: CdB

A economista Denise Gentil, assessora da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), disse que o debate realizado nos anos 40 entre o professor Eugenio Gudin e o industrial Roberto Simonsen continua atual porque ainda hoje existem no pensamento econômico as duas correntes - a monetarista e conservadora  de Gudin e a desenvolvimentista e heterodoxa  de Simonsen.

– Elas (as duas correntes) continuam disputando posições políticas, intelectuais, dentro da nossa realidade. E Gudin e Simonsen foram os pioneiros desse debate no Brasil – afirmou.

Para o Ipea, é importante mostrar  a origem das idéias no país. Autora de uma das publicações que o Ipea lançou nesta sexta-feira, no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Gentil afirmou aos jornalistas que algumas das teses defendidas àquela época não poderiam ser aplicadas agora.

– Não na fase atual, depois da crise do último trimestre de 2008 – disse.

Ela acrescentou que Gudin se surpreenderia com a atuação do Banco Central brasileiro diante da crise mundial:

– O BC fez tudo aquilo que os conservadores e monetaristas não acham que um banco central deva fazer. O BC interveio, expandiu o crédito, reduziu compulsório, vendeu divisas. Enfim, fez uma grande intervenção na economia para permitir que o Brasil saísse da crise econômica.

Gentil lembrou que o desempenho do BC brasileiro foi acompanhado pelos bancos centrais dos demais países.

Segundo Denise, é um grande avanço no século 21 o reconhecimento de que deixar o mercado dirigir a economia em um momento de crise econômica não leva o país a nada, a não ser a um fundo de poço. Nesse sentido, a intervenção foi generalizada.

– Foi uma atuação radicalmente diferente daquela que o Gudin preconizava – acrescentou.

E estava mais alinhada com a tese defendida pelo industrial Simonsen.

– Ele (Simonsen) achava impossível você tirar um país da posição de  subdesenvolvido sem intervenção do Estado. Defendia que não havia impulso interno suficiente para levar o país à industrialização – lembrou.

O Brasil, nos anos 40, era exportador de produtos primários e necessitava de grande impulso  externo para montar o parque industrial. Simonsen acreditava que esse impulso só poderia vir do Estado, fazendo grandes investimentos, inclusive como produtor direto, para criar em torno desses empreendimentos várias indústrias simultaneamente, disse a economista.

– Ele via isso como essencial. Sem isso, as indústrias não surgiam porque não haveria demanda suficiente no país – frisou.

Seria o próprio Estado que garantiria a demanda e o suporte de consumo para os produtos industriais que viriam a ser gerados. Por isso, Simonsen defendia a intervenção do Estado para realizar esses empreendimentos, bem como a proteção a essa indústria nascente. Para Denise Gentil, as autoridades econômicas brasileiras estão indo nesse caminho.

– A intervenção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social  (BNDES) tem sido extremamente ilustrativa da defesa do processo de industrialização – defendeu.

Como a crise internacional afetou particularmente o setor exportador nacional, espalhando-se por toda a indústria, isso motivou a intervenção do BC, com crédito dirigido para o setor industrial. Além disso, as políticas fiscais colocadas em prática pelo Ministério da Fazenda protegeram a indústria.

– Então, crédito direcionado e desoneração foram práticas agora extremamente importantes para preservar os empregos da indústria e recolocar de novo os patamares de investimento anteriores à crise – esclareceu.

Segundo a economista, a trajetória econômica adotada pelo Brasil foi totalmente oposta a tudo que Gudin defendia, como a vocação agrícola do país. O Brasil se industrializou e é considerado atualmente a oitava potência mundial e o oitavo Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos bens e serviços produzidos no país:

– Isso não é pouco. Então, nós tomamos um rumo e o Estado  praticou uma política contrária à do Gudin. E tem dado certo.

Ela disse que as pessoas podem criticar o ritmo e a intensidade desse processo, mas ressaltou que “ele foi na direção da industrialização. E isso está sendo retomado depois da crise econômica, que foi pedagógica para o mundo capitalista - mostrar que as políticas de proteção ao emprego e à indústria ainda são as que garantem a sobrevivência econômica das várias nações”. Denise estimou que o protecionismo vai ressurgir, depois de uma era neoliberal.

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