Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Coréia do Norte faz sua estréia em Berlim

Terça, 10 de Fevereiro de 2004 às 16:52, por: CdB

A stalinista Coréia do Norte fez tímida estréia no Festival de Cinema de Berlim com um filme que é, ao mesmo tempo, uma história de amor inconsistente e um tributo ao líder Kim Jong-Il.

On The Green Carpet provocou uma mistura de crítica - um espectador chegou a compará-lo com os filmes da era nazista - e curiosidade na Berlinale, que está logo atrás de Cannes e se nivela a Veneza entre os festivais de cinema mais importantes da Europa.

O filme foi exibido na seção especial da mostra, na noite de segunda-feira, no mesmo dia em que o Programa Alimentar das Nações Unidas fez um apelo para ajudar milhões de pessoas que a organização alega estarem morrendo de fome no país.

"Eu não sou político", disse Jang Won-Jun, presidente da Corporação Coreana de Exportação e Importação de Filmes, quando perguntado se o regime deveria estar gastando dinheiro em filmes "hagiográficos" quando há tanto sofrimento.

"Eu acho que sua pergunta está superestimada", respondeu Jang. "Você já viu os milhões?", questionou.
O filme tem como pano de fundo os intensos preparativos para a seção de ginástica em massa que o líder norte-coreano exibe anualmente no dia 1º de maio.

Ri Yong Ho interpreta o professor de ginástica Mun Gyu e Ri Kyong Hui é uma antiga companheira que se torna sua superior.

Uma série de mal-entendidos e desacordos sobre os preparativos para a apresentação comprometem sua relação profissional, até que eles começam a ver um ao outro de forma diferente.

O filme termina com uma espetacular demonstração de ginástica sincronizada, uma mistura de cores e talento que produz uma profusão de imagens.

Kim Jong-Il nunca aparece no filme, mas sua presença é constantemente sentida. Mun Gyu, lembrando sua própria reverência, o descreve às crianças como o sol ao redor do qual eles, as estrelas, orbitam.

O filme não corresponde à imagem ocidental da Coréia do Norte. O país é mostrado como um mundo ensolarado de rostos sorridentes, eletricidade em toda parte e uma devoção nebulosa a Kim Jong-Il.

Tampouco se fala da questão da falta de comida - em certo momento, as crianças participam de um farto piquenique com pratos diferentes e frutas.

Ao final da exibição, vários espectadores perguntavam porque o renomado Goethe Institute apresentou o filme.

Uwe Schmelter, chefe do escritório do instituto alemão na capital sul-coreana, Seul, disse que os organizadores da Berlinale o escolheram entre 10 filmes sugeridos pela Coréia do Norte e que se trata de um "pequeno passo" para implementar laços culturais com um país "que quer se abrir".
Jang repudiou qualquer comparação com os filmes da era nazista.

"Não acho que você tenha entendido o objetivo do filme", respondeu a um jornalista.

A Coréia do Norte, que produz cerca de 40 filmes por ano, envolve-se de forma crescente em projetos conjuntos com vários países, entre eles França, Itália, Japão e Rússia.

Jang disse ainda que tem havido contato com cineastas americanos. Quanto à entrada de filmes norte-coreanos no mercado europeu, ele afirmou: "Nosso objetivo não é ganhar dinheiro com os filmes - queremos levar nosso povo e nossa cultura para outros países".

No entanto, até o momento isto não significou estendê-los para o sul da zona desmilitarizada que separa as duas Coréias.

"Há outras barreiras que nos dividem, além do muro", explicou Jang.

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