A Coréia do Norte desafiou mais uma vez os Estados Unidos ao vincular a solução da atual crise nuclear a uma "mudança de estratégia" durante a segunda rodada de negociações que começará nesta quarta-feira, em Pequim. "As negociações serão difíceis, embora as propostas que colocaremos sobre a mesa coincidem com os interesses americanos", afirmou hoje o vice-ministro norte-coreano das Relações Exteriores, Kim Kye-gwan, representante de Pyongyang nas negociações.
Representantes da China - país anfitrião - ambas Coréias, Estados Unidos, Rússia e Japão se reunirão a partir de quarta na Residência Oficial de Hóspedes de Diaoyutai, em uma nova tentativa de persuadir Pyongyang a suspender seu programa nuclear. Segundo o representante da diplomacia norte-coreana, "as circunstâncias são mais favoráveis que em ocasiões anteriores, por isso faremos tudo o que estiver a nosso alcance para se chegar a um acordo".
Embora não haja confirmação oficial, funcionários do Governo japonês revelaram que a Coréia do Norte manifestou à China sua disposição de paralisar seu programa nuclear, como primeiro passo a seu posterior desmantelamento. Na mesma linha, o subsecretário de Estado americano, James Kelly, mostrou-se nesta terça disposto a "buscar pontos comuns" durante as negociações, depois de se reunir com o vice-ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi.
Apesar da boa vontade, as conversas poderão fracassar devido ao suposto programa norte-coreano de enriquecimento de urânio, cuja existência Pyongyang nega e que Washington, Tóquio e Seul querem colocar sobre a mesa de negociações. Segundo os observadores, os Estados Unidos desejam incluir nas negociações tanto o programa de enriquecimento de plutônio como de urânio, que permitirá que Pyongyang fabrique armas nucleares.
O Ministério norte-coreano das Relações Exteriores emitiu nesta terça-feira um comunicado no qual adverte que se a proposta for congelar seu programa nuclear antes de acordar as compensações econômicas, as negociações fracassarão. Segundo os observadores, só se a Coréia do Norte reconhecer a existência dos programas nucleares, as negociações poderão abordar o assunto das inspeções internacionais e o reatamento da assistência humanitária e energética.
China, Rússia e Coréia do Sul já se manifestaram dispostos a fornecer petróleo; enquanto Estados Unidos e Coréia do Norte assinariam um acordo de não agressão e o segundo assumiria o compromisso de abandonar o comércio de armas de destruição em massa. Quanto ao controvertido assunto dos seqüestros de cidadãos japoneses por agentes de inteligência norte-coreanos nos anos 70, Kim pediu hoje que Tóquio "não tome decisões precipitadas, já que este tema não faz parte da agenda de conversações".
Além disso, Kim se negou a explicar a razão pela qual o representante norte-coreano na primeira rodada de negociações, o vice-ministro das Relações Exteriores, Kim Jong-il, foi substituído no último momento. O chefe da delegação chinesa, Wang Yi, também não deu importância a este fato ao afirmar que "Pyongyang sempre mostrou uma atitude responsável para as negociações".
Por outro lado, o representante da diplomacia sul-coreana, o vice-ministro das Relações Exteriores, Lee Soo-Hyuck, lembrou nesta terça-feira que as conversações devem abordar "métodos e não só princípios" e reiterou a intenção de Seul de apresentar ofertas "concretas".
Em uma mostra que a China deixou de ser um mero espectador na crise nuclear coreana, as autoridades chinesas apreenderam recentemente 20 toneladas de Tributil de Fosfato (TBP) em um trem de mercadorias com destino a Pyongyang. Segundo fontes do Governo americano, a Agência Nacional de Inteligência (CIA) comunicou a Pequim a existência da carga de TBP, líquido utilizado para a extração de plutônio a partir de combustível nuclear.
A atual crise começou em outubro de 2002 depois que as autoridades norte-coreanas reconhecera