Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

Cordão do Bola Preta agita os foliões nas ruas do centro do Rio

Domingo, 02 de Março de 2003 às 06:26, por: CdB

Rio de Janeiro - A alegria venceu o medo e o carioca, mesmo com um pé atrás e cercado por um forte policiamento, acordou cedo neste sábado e veio de várias regiões da cidade engrossar o Cordão do Bola Preta, o bloco mais antigo e tradicional do Rio que reúne mais de 20 mil pessoas no centro da cidade. Com um contingente reforçado mas não revelado pela Polícia Militar, e ainda com a ajuda do exército espalhado em pontos de conflito da cidade, o carnaval ganhou tom verde-oliva este ano mas não perdeu a majestade, na opinião de antigos e novos foliões. "Para se divertir a gente arrisca tudo'', bradou a bem-humorada auxiliar de contabilidade Helena Sueli, de 50 anos, que saiu cedo de Vila Valqueire, bairro da periferia da cidade, para pular pela décima vez no bloco. A única diferença este ano, ressaltou, foi o meio de transporte: "Vim de van, é mais seguro que ônibus'', disse ainda traumatizada pelas fotos de ônibus incendiados que marcaram a semana antes do carnaval e provocaram a morte de uma passageira. Do alto dos seus 70 anos de Bola Preta, o procurador federal aposentado Darci da Costa Matos, de 85 anos, um dos mais antigos do bloco, tentava amenizar os problemas de segurança da cidade lembrando que desde sua época, quando chega o carnaval, os bandidos descem do morro para se misturar aos blocos e brincar, não para matar. "E esse ano vai ser igual, não tem o que temer'', apostava. Com dois filhos pequenos e vindo de Maria da Graça para encontrar amigos, o advogado Luis Rhein, de 39 anos, não estava tão confiante. A violência da cidade pesou na hora de sair de casa, mas a vontade de manter a tradição que se repete há 10 anos foi mais forte. "A promessa de um policiamento forte nos fez decidir vir, não podia deixar de sair no Bola, mas com uma certa apreensão'', disse entre um gole e outro de cerveja para relaxar. É CARNAVAL Quem não pensou duas vezes veio com tudo para a Cinelândia, tradicional ponto boêmio da cidade e palco de manifestações políticas, como foi o caso de Uirá Garcia, sociólogo, 26 anos, que acompanhado da tia Rosa, veterana do Bola, partiam do princípio de que nada de mal poderia acontecer, simplesmente porque é carnaval. "A malandragem, quando chega o carnaval, desce o morro e vem sambar, dificilmente vai acontecer algo de ruim'', afirmavam os Garcias em sintonia com o clima de alegria geral em torno deles. Um dos mais animados, o militar aposentado, que quer ser conhecido apenas como ``Dedão'', 32 anos de Bola Preta, disse que a fórmula para garantir um carnaval tranqüilo é rezar muito antes de sair de casa, mas de jeito nenhum deixar de sambar. "Hoje mesmo quando saí de casa tinham dois mortos no Jacarezinho, mas isso é a rotina da cidade e não é privilégio do Rio'', lembrou. O inglês Jonh Penney, 63 anos, pela primeira vez na cidade, sorria de orelha a orelha ao lado de amigos brasileiros e concordava com Dedão. "Depois de 30 anos de violência do Ira nada mais me assusta e estou escoltado por amigos brasileiros'', brincava o mais novo folião pronto para desfilar no bloco sob um calor de quase 40 graus.

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