O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central avalia que o atual patamar de juro é apropriado atualmente, por contribuir para a manutenção da inflação nas metas e para uma recuperação não inflacionária da economia, segundo a ata de sua última reunião, divulgada nesta quinta-feira. Segundo analistas, o documento reforça a visão do BC expressa no comunicado pós-reunião e a visão de que a Selic ficará estável por algum tempo. Na reunião da semana passada, o BC manteve a Selic em 8,75%.
"O Comitê avalia que esse patamar de taxa básica de juros é consistente com um cenário inflacionário benigno, contribuindo para assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas ao longo do horizonte relevante e para a recuperação não inflacionária da atividade econômica", afirmou a ata.
Para o Copom, a acomodação da demanda em meio à crise mundial pode estar sendo superada, mas ainda existe uma "sensível margem de ociosidade dos fatores de produção, que não deve ser eliminada rapidamente em um cenário básico de recuperação gradual da atividade econômica".
"Nesse quadro de retomada gradativa, que tem sido corroborado pelos dados disponíveis até o momento, as pressões inflacionárias devem seguir contidas."
Ainda não há consenso no mercado sobre quando ocorrerá uma alta da Selic, mas os analistas concordam que não será em breve.
"Apesar de ele ter sido mais enfático na questão da recuperação da demanda..., o Copom não cita nenhum fator grande de risco inflacionário. Ele ressalta que as expectativas seguem alinhadas à meta. O recado é esse: a economia está dando sinais de recuperação, sem riscos inflacionários", afirmou Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin, que vê o início de um ciclo de aperto em abril de 2010.
Flávio Serrano, economista sênior do BES Investimento, tem um cenário mais longo. A previsão oficial dele é de alta apenas em 2011, mas admite que há a possibilidade de uma elevação da Selic nos próximos seis meses.
– O Copom diz que o juro atual é compatível com uma recuperação não inflacionária, e com isso temos a ideia de que a taxa de juros vai ficar estável por um bom tempo – afirmou Serrano.
Trajetória inflacionária
Mas existem riscos ao cenário, ressaltou a ata, fazendo com o que o Copom monitore "cuidadosamente" o comportamento da economia diante do novo patamar recorde de baixa do juro.
"Visando preservar a melhora da trajetória inflacionária prospectiva, em cenário macroeconômico que contém incertezas importantes, o Copom avalia que a política monetária deve manter postura cautelosa, com vistas a assegurar a manutenção da convergência da inflação para a trajetória de metas", acrecentou a ata.
Entre os riscos vistos pelo BC, no curto prazo existem os mecanismos de reajuste que pressionam alguns preços de serviços e itens monitorados, e de uma eventual elevação dos preços de commodities.
No médio prazo, os riscos resultam dos efeitos defasados dos estímulos monetário e fiscal, "levando-se em conta a dinâmica do consumo e do investimento, em contexto de retomada da utilização dos fatores de produção".
"O balanço dessas influências sobre a trajetória prospectiva da inflação será fundamental na avaliação das diferentes possibilidades que se apresentam para a política monetária", acrescentou o Copom.
No cenário de referência do BC, que leva em conta câmbio em 1,70 real e Selic em 8,75%, a projeção para a inflação de 2009 elevou-se ligeiramente sobre a reunião anterior, mas segue abaixo do centro da meta, de 4,5%. O prognóstico para 2010 ficou estável, "em torno do centro da meta". Na ata, o BC não fornece as previsões exatas
Mercados financeiros
Ainda segundo o Copom, os meses de setembro e outubro foram marcados pela continuidade da redução do “estresse” dos mercados financeiros internacionais. Para o comitê, ações governamentais inéditas nas economias maduras, como a dos Estados Unidos, que usaram vários instrumentos para assegurar condições mínimas de funcionamento e liquidez (recursos disponíveis) nos mercados, “continuam moderando a percepção de risco sistêmico”. Esse risco ocorre quando a dificuldade de um banco em acertar suas contas com os demais provoca um efeito em cadeia, ou seja, crise em todo o sistema financeiro.
“Nesse ambiente, seguem sendo registrados sinais de redução na aversão ao risco, como evidenciado pelo comportamento dos mercados acionários internacionais, embora esse processo continue sujeito a reversões”.
Mesmo assim, diz a ata, “a tendência de diminuição da aversão ao risco e da escassez de fluxos de capitais, bem como certa preocupação entre os investidores quanto à situação fiscal nos Estados Unidos da América, continuou ensejando movimento de recuperação de moedas, de economias emergentes e maduras, ante o dólar americano”.
No documento o BC considera que a “visão atualmente dominante aponta para contração da economia mundial em 2009, com recuperação em 2010”.
O BC também afirma que perspectiva de deflação nas economias maduras vem recuando e há redução da inflação em diversas economias emergentes.
“Nesse contexto, após um período de flexibilização agressiva (dos juros básicos), a política monetária, em um número significativo de países, parece ter entrado em fase de estabilidade e, em alguns casos, de remoção de estímulos introduzidos no período mais agudo da contração internacional, ao passo que o aumento do endividamento do setor público impõe limites ao escopo de eventuais estímulos fiscais adicionais”.