O Banco Central voltou a elevar os juros nesta quarta-feira, contrariando aposta majoritária do mercado e do setor produtivo de que o aperto monetário iniciado em setembro seria interrompido. O ritmo de alta da Selic, contudo, foi reduzido.
Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou os juros em 0,25 ponto percentual para 19,5 % ao ano. Em suas últimas seis reuniões, o colegiado havia promovido altas de 0,50 ponto nos juros.
Em nota, o Copom repetiu o texto dos comunicados anteriores e disse apenas que a decisão dá "prosseguimento ao processo de ajuste da taxa de juros básica".
Pesquisa da Reuters feita na última semana mostrou que, de um total de 20 instituições financeiras consultadas, 14 esperavam manutenção dos juros. Cinco economistas previam alta de 0,25 ponto percentual e um, de 0,50 ponto.
"Supostamente, encerra-se o ciclo (de aperto), mas nunca se sabe", disse o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros.
Na opinião dos analistas que apostavam na manutenção do juro, a indústria e o comércio já deram sinais de desaceleração e os repiques recentes da inflação foram desencadeados por fatores pontuais que não são afetados pela política monetária.
Alguns economistas também diziam acreditar que o Banco Central teria desistido de alcançar a meta de 5,1 % de inflação em 2005 e já estaria mirando em 2006, ano em que a meta é de 4,5 % mais uma margem de tolerância de dois pontos percentuais.
"A decisão foi difícil, mas o ambiente deteriorou bastante. A Aneel concedeu aumentos importantes para Coelba e Coelce (distribuidoras de energia)...A decisão do Copom é legítima, mas creio que a influência será pequena sobre as expectativas. Pode, inclusive, ocorrer revisão do PIB para baixo", afirmou Octavio de Barros.
As expectativas do mercado para inflação no ano seguem em alta há sete semanas e estão atualmente em 6,10 % , segundo sondagem do Banco Central.
Para o economista-chefe do Unibanco Asset Management, Alexandre Mathias, o BC optou "por uma atitude mais cautelosa diante do risco de que a inflação ainda elevada no segundo trimestre possa atrapalhar a convergência para a meta".
Até março, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 1,79 por cento no ano.
A nova elevação dos juros enfureceu o setor produtivo, que também alertou para o impacto da decisão sobre o crescimento . Em nota, a Confederação Nacional da Indústria disse ter considerado a alta da Selic "equivocada" e "conservadora".
Segundo o presidente da entidade, Armando Monteiro Neto, "o preço dessa decisão será uma diminuição ainda maior do ritmo de crescimento da economia, com todos os custos decorrentes".
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, para quem a "sociedade brasileira esperava a fumaça branca da redução dos juros", também afirmou que os juros e "consequente valorização cambial" têm prejudicado a atividade.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT), por sua vez, pediu a intervenção do presidente Lula para que a sociedade não continue sendo "afrontada pelo Copom".
"Depois de oito meses consecutivos de elevação da Selic..., a CUT considera que só há uma saída: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve tomar uma providência urgente em relação à política de juros", disse o presidente nacional da CUT, Luiz Marinho, em nota.
A Selic segue sem viés --mecanismo que permitiria uma mudança antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 17 e 18 de maio.