O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) manteve a taxa básica de juros em 16,5% ao ano pelo segundo mês consecutivo na reunião encerrada ontem. A decisão não surpreendeu, mas, ao contrário do que tradicionalmente ocorre, a autoridade monetária não forneceu detalhes sobre as motivações de sua decisão.
A decisão veio em linha com as expectativas do mercado e gerou reação do setor produtivo, que avalia que a manutenção do juro pode retardar a tão esperada recuperação econômica.
Em nota lacônica distribuída à imprensa, o Banco Central se limitou a informar que a decisão do Comitê foi unânime e que não foi adotado viés --mecanismo que permitiria uma alteração da Selic antes da próxima reunião do comitê, marcada para os dias 16 e 17 de março.
"O Copom foi cauteloso por unanimidade. Para maiores interpretações, leia a ata (da reunião), foi isso o que ele disse. O momento ainda é de rescaldo nos índices de inflação, mas há um ruído político", afirmou o economista-chefe do Westlb Brasil, Nicola Tingas.
Em janeiro, o Copom surpreendeu o mercado ao manter a taxa de juros após sete meses consecutivos de cortes. A ata da reunião do Comitê revelou um BC preocupado com a possibilidade de os recentes repiques inflacionários persistirem e se propagarem pela economia, impondo "uma eventual acomodação da inflação em patamares mais elevados".
Na ocasião, a autoridade monetária frisou que a interrupção dos cortes era "temporária".
Diante dos comentários do Copom em janeiro, e do fato de a inflação não ter dados sinais definitivos de arrefecimento desde então, a expectativa geral do mercado era de que a taxa seria mantida nesta quarta-feira.
Pesquisa Reuters feita junto a 20 economistas na última semana mostrou que 19 deles esperavam a manutenção dos juros. Um único analista previa corte de 0,25 ponto percentual.
Turbulência política
A decisão de ontem foi anunciada em meio à primeira grande turbulência política do governo Luiz Inácio Lula da Silva relacionada a denúncias de corrupção levantadas contra o ex-subchefe de assuntos parlamentares da Presidência, Waldomiro Diniz.
"Os títulos da dívida externa brasileira caíram ainda mais após a decisão do Copom. Ainda que a aposta majoritária era de que não haveria corte, havia uma certa esperança de que um corte pudesse mudar o foco da mídia e reduzir o risco de uma CPI (para investigar as denúncias contra Diniz)", afirmou o chefe da área de pesquisa para América Latina do Ideaglobal, Riardo Amorim.
Outros economista ouvidos pela Reuters, contudo, ressaltaram que, em um cenário de fragilidade política, seria ainda mais relevante que o Banco Central evitasse movimentos que pusessem se interpretados como políticos.
A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) criticou a decisão do Copom. Em nota, o presidente da entidade, Horácio Lafer Piva, afirmou que as recentes altas de preços são temporárias. "Esse diagnóstico justificaria uma política monetária mais flexível, permitindo que os juros fossem reduzidos já."
Na mesma linha, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lamentou a manutenção da Selic, afirmando que a decisão "vai comprometer e, de alguma maneira, postergar o processo de recuperação do investimento e da atividade produtiva".