A menos de cem dias do início da Copa, muitas obras inclusive estádios seguem inacabadas; a maioria dos brasileiros tem certeza de que os protestos vão continuar, sob o risco de ficarem ainda mais violentos; o índice de aprovação ao torneio é o mais baixo desde 2008; e metade dos brasileiros não defenderia uma nova candidatura do país a sede do Mundial.
Apesar de procura por ingressos ser recorde, insatisfação com investimentos públicos bilionários em estádios corrói aprovação ao Mundial
A menos de cem dias do início da Copa, muitas obras inclusive estádios seguem inacabadas; a maioria dos brasileiros tem certeza de que os protestos vão continuar, sob o risco de ficarem ainda mais violentos; o índice de aprovação ao torneio é o mais baixo desde 2008; e metade dos brasileiros não defenderia uma nova candidatura do país a sede do Mundial.
Apesar de tudo isso, a procura por ingressos mostra que muitos brasileiros estão animados com o Mundial. O Brasil tem a maior quantidade de ingressos atribuídos, cerca de 900 mil num total de 10 milhões de pedidos, o que é recorde, segundo a Fifa.
- Gosto muito de futebol, não tem como não se empolgar - afirma o paulista Fabricyo de Sousa, de 25 anos. Gerente de mídias sociais, ele criou uma página de humor no Facebook, chamada "Vai ter Copa Sim", com mais de 7 mil seguidores.
Ainda que muitas das publicações não sejam relacionadas ao Mundial, Fabricyo é firme no apoio ao evento. "Ser contra quando já está na cara do gol não dá. Agora que está feito, vamos curtir." Mas esse apoio não é sem restrições. Ele é um dos muitos que preferiam ver o dinheiro público investido em serviços como transporte, saúde e educação.
Segundo o Ministério do Esporte, até o momento foram gastos R$ 25,6 bilhões com a Copa, dos quais apenas R$ 3,7 bilhões são recursos privados.
Rejeição
Pelos mesmos motivos de Fabricyo, o mineiro Luiz Terenzi, de 47 anos, sempre foi contra o Mundial no Brasil. E ele não está sozinho.
Segundo um estudo da MDA Pesquisa e da Confederação Nacional do Transporte (CNT), 50,7% dos brasileiros seriam contra a candidatura do Brasil como sede da Copa do Mundo caso a escolha fosse hoje. Dos que veem o torneio com bons olhos, apenas 26,1% seriam totalmente a favor.
Ainda assim, o gosto pelo esporte motiva Luiz a participar do evento. Ele comprou ingressos para ver cinco partidas em Belo Horizonte com a mulher e os dois filhos.
- Estou animado com a oportunidade de ver os jogos - diz, ressaltando que sua animação se limita às partidas e "não ao fato de a Copa ser aqui". Como em todo Mundial, Luiz vai reunir amigos e familiares para acompanhar as partidas também em casa. E a torcida? "Não me motiva a seleção brasileira, ali há mais interesse político e empresarial que futebolístico."
A opinião desfavorável de Luiz sobre a Copa é cada vez mais comum entre brasileiros. Em 2008, um ano após o anúncio de que o país organizaria o Mundial, 79% dos brasileiros eram a favor da competição, segundo pesquisa do Datafolha.
Em junho de 2013, quando o Brasil foi tomado por uma onda de protestos, desencadeados pelo aumento das tarifas do transporte público, a aprovação caiu para 65%. Em fevereiro deste ano, atingiu seu nível mais baixo, 52%.
A rejeição também aumentou. A taxa dos brasileiros que são contrários à Copa do Mundo cresceu e passou de 10%, em 2008, para atuais 38%.
Entre eles está Felipe Alencar, de 21 anos, que participou de vários protestos contra a Copa. O estudante de pedagogia da Unifesp diz que a precariedade dos serviços públicos afeta sua vida diariamente.
Morador da periferia de São Paulo, Felipe ressalta que ele não é contra o futebol, apesar de não ser fã do esporte. "Os trabalhadores não vão poder participar, porque os ingressos são muito caros. Essa Copa não beneficia o povo. É uma contradição investir dinheiro público nisso enquanto não temos direitos básicos", argumenta.
Obras e violações
A forma como os governos vêm gastando os recursos públicos com a organização do Mundial é fonte de insatisfação para grande parte dos brasileiros.
Segundo a pesquisa da MDA e do CNT, 75,8% dos brasileiros consideram que os investimentos no torneio foram desnecessários. Em relação aos estádios, 80,2% defendem que o dinheiro deveria ter sido destinado a "áreas mais importantes".
A três meses do Mundial, cinco estádios ainda estão em reforma. As obras deveriam ter terminado em dezembro do ano passado.
O término de obras de pavimentação e urbanização de áreas do entorno do estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, por exemplo, ainda está em fase de licitação. Curitiba, Manaus, São Paulo e Cuiabá também correm contra o tempo para cumprir os prazos da Fifa.
Em relação às obras de infraestrutura, muitas estão atrasadas e outras ficaram para depois do torneio. É o caso do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, cujas obras serão, em parte, finalizadas após o evento.
A situação do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, é ainda pior. O local terá um terminal provisório, que ficou conhecido como "puxadinho", durante a competição.
Há ainda estruturas que foram inauguradas e já apresentam falhas que terão de ser reformadas, como ocorre em Cuiabá. Segundo o Ministério do Esporte, o andamento das obras está "dentro do previsto".
A Copa como justificativa
Para a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (rede de organizações e movimentos sociais), o não cumprimento do cronograma é a menor das preocupações. Para um dos membros do Comitê do Rio, Orlando dos Santos Júnior, o megaevento serve de justificativa para realizar obras que não beneficiam a população.
- A questão dos prazos é secundária em relação à própria natureza das intervenções. Eu não tenho dúvida de que estádio de Manaus vai estar concluído para a Copa. Mas é do nosso interesse ter um estádio lá? Ou ele corre o risco de virar um elefante branco? A quem interessa essa obra? - questiona Orlando, também coordenador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ.
Ele ressalta que a Copa serve para legitimar a aceleração desses empreendimentos. "Isso permitiu desregulamentar processos licitatórios e dispensar audiências publicas, por exemplo. Ainda que muitas destas obras de mobilidade, por exemplo, pouco impactem a organização do Mundial."
O membro da articulação nacional Renato Cosantino alerta ainda para as violações dos direitos humanos, feitas em nome dos megaeventos: "Parece que é um vale-tudo. Vale violar o direito a moradia e vale remover mais de cem mil pessoas apenas no Rio de Janeiro" – a cidade também vai sediar as Olimpíadas em 2016.
Segundo Cosantino, muitas destas pessoas ainda não receberam reparação, anos após serem desalojadas.
- A competição também impede trabalhadores informais de seguirem com as suas atividades, violando o direito ao trabalho. Há crimes ambientais, falta de transparência e até violação do direito de manifestação - diz.
Pontos positivos
Mesmo com todas as críticas, há quem defenda a Copa incondicionalmente. Aidê de Simone, de 50 anos, será voluntária do evento em São Paulo. Ela já comprou ingressos para assistir a dois jogos com o marido e os filhos.
- O clima nesses eventos é muito alegre, e você se sente parte de algo maior - diz. A professora de educação física também foi voluntária na Copa das Confederações e assegura que vai torcer para o Brasil.
Para Aidê, a Copa é "um grande aprendizado e traz muitas oportunidades de trabalho". Ela considera que está mais preparada profissionalmente após participar como voluntária em megaeventos.
O Ministério do Esporte aponta a qualificação de trabalhadores como um dos legados da Copa. "No Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) Copa, mais de 90 mil pessoas estão sendo capacitadas para atuar no Mundial. Sem contar as iniciativas individuais e de empresas privadas, como os cursos de línguas que hotéis estão oferecendo a seus trabalhadores", afirma, em nota, o Ministério.
O biólogo Rodrigo Labello Barbosa, de 30 anos, também será voluntário. Ele se diz "muito animado" com as confraternizações. "Haverá uma grande circulação de turistas e isso promove uma troca cultural intensa. As pessoas estão mais abertas para o diferente."
Segundo o Ministério do Esporte, a previsão é de que 600 mil estrangeiros visitem o país durante a Copa do Mundo e mais 3 milhões de turistas brasileiros circulem pelo território nacional. A Embratur estima que os estrangeiros gastem R$ 6,85 bilhões e os brasileiros, R$ 18,35 bilhões ao longo do torneio.
Para Rodrigo, a Copa também representa ganhos econômicos e em infraestrutura. De acordo com um estudo da Ernst & Young e da Fundação Getulio Vargas (FGV), a competição injetaria, adicionalmente, R$ 112,79 bilhões na economia brasileira entre 2010 e 2014, sem contar com os investimentos públicos.
No total, o país movimentaria R$ 142,39 bilhões, gerando 3,63 milhões de empregos por ano e R$ 63,48 bilhões de renda para a população.
Ídolos do futebol
As opiniões sobre a Copa também colocaram ídolos do futebol em lados opostos. Um dos maiores críticos ao Mundial, o deputado federal e ex-jogador da seleção Romário (PSB-RJ), chamou o torneio de "o maior roubo da história do Brasil".
De outro lado, o rei do futebol e embaixador honorário da Copa, Pelé, partiu em defesa do evento. Junto com ele, o ex-jogador da seleção e membro do Comitê Organizador Local (COL), Ronaldo, também fez declarações em apoio ao Mundial, com direito a troca de farpas com Romário.
Em 2011, Ronaldo afirmou que "não se faz Copa com hospital". Em 2013, o vídeo com a declaração polêmica voltou à tona com os protestos, e o artilheiro disse ter se arrependido. Ele garantiu ser a favor das manifestações, desde que pacíficas.
No mesmo ano, Romário chamou Ronaldo de "ignorante" por apoiar o Mundial. Ao que o membro do COL respondeu: "Tem gente se aproveitando da situação."
Na época, durante a Copa das Confederações, Pelé fez um apelo aos brasileiros: "Vamos esquecer toda essa confusão que está acontecendo no Brasil e vamos pensar que a seleção brasileira é o nosso país, é o nosso sangue."
No início de 2014, o ídolo voltou a pedir que os brasileiros não protestassem. Segundo ele, o povo estava "estragando a festa". "Espero que a gente tenha essa consciência: deixar passar a Copa do Mundo. Aí vamos reivindicar o que os políticos estão roubando ou desviando. Isso é outra coisa. O futebol só traz divisas e só traz benefícios para o Brasil", disse.
Protestos
Aidê, que também é a favor do Mundial, concorda com Pelé. Ela considera injusto culpar a Copa pelos problemas do país. "Se não houvesse o Mundial, esse dinheiro não iria para a educação. Infelizmente seria roubado da mesma forma, porque o Brasil é corrupto", defende.
Em junho de 2013, em meio aos protestos que varriam o país, Romário publicou um vídeo na internet apoiando as manifestações e fazendo duras críticas à Fifa e aos gastos governamentais com o Mundial: "O verdadeiro presidente do país hoje se chama Fifa. Ela chega aqui e monta um Estado dentro do nosso Estado", declarou.
Fabricyo também não quer protestos durante a competição. Para ele, serão contraproducentes. "Prometeram que o Mundial traria melhorias para população e não trouxe. Nunca vou ser contra manifestação, mas isso deveria ter sido feito bem antes do evento."
Junto com Fabricyo e Aidê, 63% dos brasileiros são contra a realização de protestos durante o torneio, aponta o Datafolha. Segundo a pesquisa da MDA e CNT, apenas 15,2% declaram que participariam dessas manifestações durante a competição.
Já Rodrigo, apesar do discurso positivo em relação à Copa, não é contra as manifestações. Segundo ele, a opinião de quem é contra o Mundial deve ser respeitada. "Vivemos em uma democracia. Os protestos pacíficos, inclusive durante o evento, são legítimos. Essa postura precisa ser exercitada pelos cidadãos de maneira contínua."
Para Luiz, que considera que o país estaria melhor sem o megaevento, esses protestos são importantes. "Contanto que sejam pacíficos, eu concordo. É a hora de tentar forçar os políticos a trabalhar pelo povo."
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