Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Copa do Mundo de 2014 - Uma goleada de sofismas

Por Gilson Caroni Filho - Esta foi a Copa das Copas que, contrariando os prognósticos de articulistas da grande mídia, TV Globo em especial, arrancou elogios da imprensa internacional e encantou a todos os que vieram ao Brasil pela primeira vez.

Domingo, 13 de Julho de 2014 às 10:58, por: CdB
copa-alemanha1.jpg
Gilson Caroni Filho: "E, cá entre nós, um bom RP aconselharia a administrar o jogo a partir do terceiro gol e não promover o massacre de 7x1".
Após a derrota do Brasil, choveram análises na grande imprensa associando o fracasso da seleção a uma urgente necessidade de reorganizar o país ( não apenas reformular as instâncias responsáveis pelas diversas práticas esportivas) em moldes "modernos". Leia-se: uma modernização radical feita pelo mercado, com claras associações ao modelo neoliberal que pretende ressurgir na candidatura Aécio Neves. Em conversa com amigos, sempre tentei explicar a falácia da proposta, apontando para o que, deliberadamente, ocultava. A todos respondi com um " a resposta está dentro de campo". Como vários não entenderam, volto ao debate para elencar os sofismas.
1- Muitos tentaram explicar o placar dilatado pelo nível de gerenciamento do futebol alemão. Se for por aí, pelo placar, Alemanha e Gana, que empataram em 2x2, estão no mesmo patamar de gestão.
2- Que o futebol é mal administrado, sabemos desde 1954, quando Flávio Costa afirmou que a maior paixão do brasileiro só tinha evoluído do túnel pra fora. Mesmo assim, com o que há de pior nas federações e confederações,encantamos o mundo em 1958/62/70/ 82, e ganhamos em 1994 e 2002. Isso não nega a urgência de reformulação, mas está longe de explicar a goleada de terça-feira. 3- Os que, por cálculo político, acham que a derrota trará dividendos à oposição vivem em Marte. Esta foi a Copa das Copas que, contrariando os prognósticos de articulistas da grande mídia, TV Globo em especial, arrancou elogios da imprensa internacional e encantou a todos os que vieram ao Brasil pela primeira vez. Aeroportos funcionando perfeitamente, estádios bem construídos, jogos de alto nível técnico e a nossa hospitalidade contribuíram para o clima de magia vivido nos últimos dias.Ninguém aqui ignora que nossa sociedade ainda é muito desigual, mas isso não anula a confraternização de povos vista em praias, ruas e estádios. 4- O surrado argumento de que o desempenho em campo reflete a sociedade brasileira é derrubado com uma simples pergunta: éramos melhores quando apresentávamos um futebol mágico? Vivíamos dias felizes na Copa de 70? 5- Parte do sucesso dos alemães se deve a uma bem traçada estratégia de RP. Li isso também. A escolha da camisa (com cores que estão na bandeira alemã) levaria a uma identificação imediata da torcida do Flamengo com a seleção germânica. Acreditar nisso é passar um atestado de idiotia no torcedor brasileiro, na sua capacidade de discernimento. Claro que o flamenguista, como qualquer torcedor, é brincalhão, gosta de tirar onda, mas sabe diferenciar as coisas. Ademais, cabe lembrar que Vitória, Sport e outros clubes têm camisas rubro-negras. E, cá entre nós, um bom RP aconselharia a administrar o jogo a partir do terceiro gol e não promover o massacre de 7x1. 6- A Copa termina neste domingo. Pode ser que a Alemanha, com o resultado obtido na terça-feira, embale e ganhe a Copa. Ou não. Eu sei que os tempos são outros, mas em 1950, o Brasil venceu a Suécia por 7x1, a Espanha( com quem os uruguaios haviam empatado) por 6x1 e todos sabem qual foi o desfecho. Por isso o futebol é mágico, imprevisível e trágico. Repito: busquem explicações dentro do campo. É nele que os deuses estão.
 Em outubro, o embate dos embates será na esfera política. E nela não há deuses, magia ou grandes metáforas. O que estará em jogo é se queremos avançar com políticas de inclusão social, aprofundamento da cidadania, fortalecimento do Estado ou se pretendemos voltar a crer no " destino manifesto" da submissão ao imperialismo e do sucateamento de nossa estrutura produtiva.  Quando a democracia se vê ameaçada, é hora de reafirmarmos nossa têmpera de combatentes. E aí não há espaço para viralatices,com as quais as elites reacionárias construíram sua identidade. Que não pode se confundir com a nossa.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia da Facha (RJ), colaborador do Correio do Brasil e colunista do Portal Vermelho e da Carta Maior.
Tags:
Edições digital e impressa