Quando os Estados Unidos foram à guerra contra o Iraque, Jehane Noujaim começou a produzir um documentário sobre uma coisa que, para muitos norte-americanos, é um inimigo público tão grande quanto o país do Oriente Médio: a rede de televisão Al Jazeera.
Com o patriotismo americano em ponto de bala e o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, descrevendo a rede árabe como "porta-voz de Osama bin Laden", Noujaim não imaginava que seu documentário "Control Room" pudesse ser lançado comercialmente nos EUA.
"Pensei 'meu Deus, ninguém vai ver este filme. Quem sabe o exibem no Canadá"', contou a diretora norte-americana de origem egípcia, na véspera da estréia do filme em Nova York, na semana passada.
O longa-metragem estréia em Los Angeles em junho e, em seguida, em todos os EUA.
Não faltam surpresas em "Control Room", em que Noujaim mostra como a Al Jazeera cobriu a guerra no Iraque para estimados 40 milhões de telespectadores de língua árabe.
O que mais chama a atenção são as imagens explícitas de civis iraquianos mortos e mutilados -- os chamados "danos colaterais" provocados pela campanha liderada pelos EUA -- que a Al Jazeera difundiu pelo mundo, mas que raramente foram vistas em lares dos EUA.
Com sede no Qatar, a Al Jazeera, que visa ser a voz do mundo árabe livre em uma região em grande parte governada por regimes autoritários, é tão criticada em alguns países árabes quanto é nos Estados Unidos.
"Control Room" foi filmado na sede da Al Jazeera em Qatar e no vizinho Comando Central norte-americano, desde a véspera da guerra até 1o de maio de 2003, quando o presidente George W. Bush declarou que os combates principais tinham terminado.
O filme mostra jornalistas da rede, homens e mulheres de várias nacionalidades, alguns usando jeans e camisetas ocidentais, outros em vestes e turbantes árabes tradicionais.
Eles enfrentam horários de fechamentos, ligações por satélite, questões de integridade jornalística e de crenças pessoais, do mesmo modo que acontece em qualquer outra organização de imprensa.
"Espero que, depois de assistirem ao filme, o público norte-americano se dê conta de que a Jazeera não é o que alguns dizem a seu respeito, e sim um canal profissional que procura fazer um trabalho que é muito difícil naquela região do mundo", disse o produtor da rede, Samir Khader, ex-jornalista de TV jordaniano que aparece no documentário.
Khader disse que a missão da Al Jazeera é "tornar-se a voz do mundo árabe livre com mentalidade ocidental, procurando educar a população árabe sobre algo chamado liberdade de expressão, democracia e responsabilidade."
"Control Room" foi escolhido para ser distribuído nos EUA depois de ser exibido no Festival de Sundance, em janeiro.
O longa-metragem está sendo lançado no momento em que a percepção da guerra começa a se modificar, à luz dos ataques rebeldes diários contra tropas americanas e do escândalo em torno dos abusos cometidos contra prisioneiros iraquianos.