Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

Contribuição da América Latina para uma geosociedade

Segunda, 08 de Agosto de 2011 às 08:04, por: CdB

Por todas as partes no mundo cresce a resistência ao sistemade dominação do capital globalizado pelas grandes corporações multilaterais sobreas nações, as pessoas concretas e sobre a natureza. Está surgindo, bem ou mal,um design ecologicamente orientado por práticas e projetos que já ensaiam onovo. A base é sempre a economia solidária, o respeito aos ciclos da natureza,a sinergia com a Mãe Terra, a economia a serviço da vida e não do lucro e umapolítica sustentada pela hospitalidade, pela tolerância, pela colaboração epela solidariedade entre os mais diferentes povos, demovendo destarte as basespara o fundamentalismo religioso e político e do terrorismo que assistimos nosEUA e agora na Noruega.

Entre muitos projetos existentes na América Latina como aeconomia solidária, a agricultura orgânica familiar, as energias alternativaslimpas, a Via Campesina, o Movimento Zapatista e outros queremos destacar doispela relevância universal que representam: o primeiro é o "Bem Viver” e osegundo a "Democracia Comunitária e da Terra”, como expressão de um novo tipode socialismo.

O "Bem Viver” está presente ao longo de todo o continenteAbya Yala (nome indígena para o Continente sulamericano), do extremo norte atéo extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois são as mais conhecidos: sumaqamaña (da cultura aymara) e suma kawsay (da cultura quéchua). Ambassignificam: "o processo de vida em plenitude”. Esta resulta da vida pessoal esocial em harmonia e equilibrio material e espiritual. Primeiramente é um saberviver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com aDivindade, com a Mãe Terra, com suas energias presentes nas montanhas, naságuas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se umaeconomia não da acumulação de riqueza mas da produção do suficiente e dodecente para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades dasgerações futuras.

Esse "Bem Viver” não tem nada a ver com o nosso "ViverMelhor” ou "Qualidade de Vida”. O nosso Viver Melhor supõe acumular meiosmateriais, para poder consumir mais dentro da dinâmica de um progressoilimitado cujo motor é a competição e a relação meramente de uso da natureza,sem respeitar seu valor intrínseco e sem se reconhecer parte dela. Para quealguns possam viver melhor, milhões têm que viver mal.

O "Bem Viver” não se identifica simplesmente com o nosso"Bem Comum”, pensado somente em função dos seres humanos em sociedade, numantropo-e-sociocentrismo inconsciente. O "Bem Viver” abarca tudo o que existe,a natureza com seus diferentes seres, todos os humanos, a busca do equilíbrioentre todos também com os espíritos, com os sábios (avôs e avós falecidos), comDeus, para que todos possam conviver harmonicamente. Não se pode pensar o "BemViver” sem a comunidade, a mais ampliada possível, humana, natural, terrenal ecósmica. A "minga” que é o trabalho comunitário, expressa bem este espírito decooperação.

Essa categoria do "Bem Viver” e do "Viver Bem” entrou nasconstituições do Equador e da Bolívia. A grande tarefa do Estado é poder criaras condições deste "Bem Viver” para todos os seres e não só para os humanos.

Esta perspectiva, nascida na periferia do mundo, com todasua carga utópica, se dirige a todos, pois é uma tentativa de resposta à criseatual. Ela poderá garantir o futuro da vida, da humanidade e da Terra.

A outra contribuição latino-americana para um outro mundopossível é a "Democracia Comunitária e da Terra”. Trata-se de um tipo de vidasocial, existente nas culturas da Abya Yala, reprimida pela colonização mas queagora, com o movimento indígena resgatando sua identidade, está atraindo oolhar dos analistas. É uma forma de participação que vai além da democraciaclássica representativa e participativa, de cunho europeu. Ela as inclui, masaporta um elemento novo: a comunidade como um todo; esta participa naelaboração dos projetos, de sua discussão, da construção do consenso e de sua implementação.Ela pressupõe já uma vida comunitária estabelecida na população.

Ela se distingue do outro tipo de democracia por incluirtoda a comunidade, a natureza e a Mãe Terra. Reconhecem-se os direitos danatureza, dos animais, das florestas, das águas, como aparece nas constitiçõesnovas do Equador e da Bolívia. Faz-se uma ampliação da personalidade jurídicaaos demais seres, especialmente à Mãe Terra. Pelo fato de serem vivos, possuemum valor intrínseco e são portadores de dignidade e direitos e por isso sãomerecedores de respeito.

A democracia será então sócio-terrenal-planetária, ademocracia da Terra. Há os que dizem: tudo isso é utopia. E de fato é. Mas umautopia necessária. Quando tivermos superado a crise da Terra (se a superarmos)o caminho da Humanidade seria este: globalmente nos organizarmos ao redor do"Bem Viver” e de uma "Democracia da Terra”, da "Biocivilização” (Sachs). Jáexistem sinais antecipadores deste futuro.

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