Rio de Janeiro, 15 de Agosto de 2026

"Contracorrente" faz um retrato da hipocrisia

O peruano Contracorrente marca uma bem-sucedida estreia em longas do peruano Javier Fuentes-Léon, que também assina o roteiro. Ganhador de diversos prêmios, entre eles o de público do Festival de Sundance do ano passado, com sua delicadeza, é um filme poderoso. Ao falar do amor, faz um retrato da hipocrisia.

Sexta, 08 de Abril de 2011 às 08:10, por: CdB
O peruano Contracorrente marca uma bem-sucedida estreia em longas do peruano Javier Fuentes-Léon, que também assina o roteiro. A história pode ser definida como o dia em que Dona Flor e Seus Dois Maridos encontra O Segredo de Brokeback Mountain - com ênfase na melancolia do segundo, ao invés da comédia do primeiro. Contracorrente se passa num pequeno vilarejo no Peru, que parece perdido no tempo e no espaço. Não fossem algumas bugigangas tecnológicas, podia-se pensar que a história se passa há algumas décadas. Ao menos, a mentalidade local parece parada no passado remoto. Quando o filme começa, o pescador Miguel (Cristian Mercado, de Che - Guerrilha) tem um romance com o fotógrafo e pintor Santiago (Manolo Cardona, de A mulher do Meu Irmão). Não seria nada demais, não fosse o primeiro casado com Mariela (Tatiana Astengo, de Pantaleão e as Visitadoras), que está grávida. A relação entre os dois sempre acontece ao longe, em praias isoladas, onde sozinhos podem viver o seu amor. O pescador Miguel é um personagem com um conflito muito grande: apaixonado por Santiago e também por sua mulher, ele fica dividido entre o dever e seu coração. Na vila onde moram, o fotógrafo é visto com hostilidade, ninguém fala com ele e crianças atiram ovos em suas janelas. Mas seu amor por Miguel é tão grande que, mesmo morto, ele continua aparecendo para o pescador - tal qual Vadinho para dona Flor. Porém, aqui não é como o romance de Jorge Amado, ou o filme de Bruno Barreto - não há espaço para risos no inusitado da situação. Santiago conta para Miguel que não consegue abandoná-lo, e o seu amante também não quer isso. É a situação ideal para Miguel: com o outro morto, pode viver seu romance e manter o casamento. O diretor Fuentes-Léon dribla com criatividade as limitações orçamentárias. O cotidiano do vilarejo incorpora os temas que o diretor pretende discutir com seu filme - como o amor entre dois homens, a descoberta e aceitação da identidade de cada um. As pessoas com quem Miguel se relaciona no seu dia-a-dia (sua mulher, outros pescadores, seu filho) impulsionam a narrativa. Mas o que traz força para essa história são seus personagens muito humanos e repletos de nuance. Desde o pescador que nem sempre sabe lidar com sua bissexualidade, até o fotógrafo bem resolvido, passando pela mulher de Miguel, que fica dividida entre o amor pelo marido e o preconceito enraizado em sua educação. Nessa educação, aliás, é estranho que homem veja novela - eles têm de gostar de futebol - por isso, Mariela dá um sorriso sem graça quando diz para as amigas que Miguel vê a reprise da brasileira Direito de Amar e gosta muito de Lauro Corona. Ganhador de diversos prêmios, entre eles o de público do Festival de Sundance do ano passado, Contracorrente é, com sua delicadeza, um filme poderoso. Ao falar do amor, faz um retrato da hipocrisia.
Tags:
Edições digital e impressa