Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Continuidades e inovações nas lutas recentes no campo

Por Leonilde Servolo de Medeiros No início do século 21, o tema da reforma agrária vem ainda intimamente aliado às reivindicações de gênero, mostrando o protagonismo das mulheres no meio rural: trata-se de demandar igualdade de direito no acesso à terra. (Leia Mais)

Quarta, 08 de Dezembro de 2004 às 09:11, por: CdB

O Fórum Mundial da Reforma Agrária que se realiza em Valência, na Espanha, entre os dias 4 e 8 de dezembro, dá visibilidade às demandas por reforma agrária que crescem em todos os continentes, pela ação dos mais diferentes movimentos sociais, recolocando o protagonismo dos pequenos agricultores, autoidentificados como camponeses. Trata-se de um espaço rico, onde afloram um conjunto de temas que mostram que a bandeira da reforma agrária vem ganhando novos sentidos, distanciando-se do que ela significou, por exemplo, nos anos 50/60 do século XX, no bojo dos projetos desenvolvimentistas.

Se, por um lado, o acesso a terra mantêm-se como ponto de continuidade, de outro emergem novos temas nas reivindicações desses segmentos mobilizados por diferentes formas de organização, que deixam transparecer as profundas transformações ocorridas no meio rural nas últimas décadas em todo o mundo e o efeito dos movimentos feministas, ambientalistas e por direitos que, ao longo dos últimos 40 anos, tiveram um papel importante no sentido de questionar tanto o produtivismo relacionado à chamada revolução verde, o lugar da mulher na sociedade e afirmar a necessidade de reconhecimento do diverso.

Chama a atenção que o que está em pauta não é simplesmente o acesso a terra para plantio (embora também o seja), mas também a recursos naturais, como água, florestas, pastagens naturais, sementes, refletindo o intenso processo de capitalização sofrido pela agricultura nas últimas décadas e a conseqüente expropriação econômica, social e política que vem se abatendo sobre determinados segmentos sociais. Não por acaso um dos temas recorrentemente presente e apresentado pelos movimentos sociais como crítico é o do acesso às sementes, cujo processo de produção é cada vez mais monopolizado por grandes empresas produtoras de insumos, dificultando que os mais pobres tenham acesso a elas.

Por esse mesmo viés, a questão da degradação dos recursos naturais também se coloca fortemente em pauta, denunciando um modo de produzir que tem significado uma deterioração intensa das condições ambientais.

No início do século 21, o tema da reforma agrária vem ainda intimamente aliado às reivindicações de gênero, mostrando o protagonismo das mulheres no meio rural: trata-se de demandar igualdade de direito no acesso à terra, uma vez que tanto os costumes e a legislação vigente em vários países impede que a mulher participe da gestão da produção ou receba um titulo de propriedade da terra. Da mesma forma, aflora a demanda pelo reconhecimento e respeito às diferentes etnias.

Nesse quadro, reforma agrária ganha significados que vão muito além do econômico. Chamar atenção para esses aspectos significa, antes de mais nada, partir da diversidade como elemento estruturador das demandas. Longe de ter como referência grupos sociais abstratos, emergem reivindicações que nos colocam frente a frente com grupos heterogêneos, que lutam justamente pelo direito à diferença e contra as diferentes formas de padronização que lhes são impostas.

Assim, mais do que se colocar na cena política como produtores, os protagonistas das lutas por terra hoje se apresentam também como portadores de valores, de culturas diferenciadas. Trazem à tona um universo de demandas pelo reconhecimento de direitos, alguns consagrados pelo costume, outros que o afrontam, como é o caso da igualdade de gêneros. Mostram ainda grupos ativos lutando contra as profecias da segunda metade do século passado que os condenavam ao desaparecimento econômico e social.

No cerne dessas mudanças, encontra-se uma utopia social de recusa à universalização das relações mercantis, chamando a atenção para esferas da vida que não querem ver submetidas ao mundo do mercado. Mais uma vez, o tema das sementes é emblemático, na medida em que cruza todo o debate trazido pelos ambientalistas sobre a importância da biodiversidade e os riscos que ela corre, com a negação da subordi

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