Rio de Janeiro, 11 de Setembro de 2026

Contando a história dos outros

Quarta, 02 de Fevereiro de 2005 às 09:37, por: CdB

Cinebiografias sempre foram uma boa alternativa de dar uma azeitada na máquina hollywoodiana. Atualmente duas biografias levaram milhões aos cinemas. Alexandre, dirigido por Oliver Stone, e Ray, de Taylor Hackford. Alexandre já estreou por aqui e recebeu críticas de todo lado. O outro é um dos favoritos para o Oscar e estréia ainda esse mês no Brasil. Apesar de tratarem de pessoas, regiões e épocas distintas, os dois filmes têm bastantes similaridades.
 
SOBRE O ELENCO
 
Alexandre traz um elenco bem conhecido (Angelina Jolie, Anthony Hopkins, Val Kilmer, Collin Farrel e Christopher Plummer). Ray não - o ator Jammie Foxx, que interpreta o fenômeno Ray Charles, ainda está em ascensão, sendo este seu grande momento. O tom épico de Alexandre, realçado com trilha não muito inspirada de Vangelis, justifica a presença do elenco estelar. O universo negro recriado em Ray não comporta uma galeria de astros por diversos motivos. O maior deles: que de fato se trata de um filme para apenas um ator (o principal, óbvio).
 
E, se pensarmos nos dois filmes, veremos que se tratam de classes raciais opostas. De um lado Alexandre, com seu elenco majoritariamente branco (Rosário Dawson, bela atriz, destoa do resto) contrasta com os personagens de Ray. E se pensarmos de novo, veremos que um representa o old stablishment, com várias garantias de cifras milionárias, e o outro o novo. Ou ainda, a ascensão. É como se Alexandre fosse o filme de outrora e Ray o tema de hoje. E ambos se encontrarão lado-à-lado nos cinemas nas próximas semanas. É quase certo que Ray vai ter um diálogo com o público muito mais razoável do que vem tendo Alexandre.  
 
SOBRE O TEMA
 
Alexandre é, no fundo, uma história sobre batalhas e homossexualismo. Ray é um enredo sobre a discriminação e as drogas. São duas batalhas. Uma sob a ótica do homossexualismo e outra sob a ótica das drogas. Duas questões definitivamente polêmicas.     
 
As longas projeções (de 150 minutos para cima) inserem o espectador em trajetórias quase completas, que acompanham os biografados (Alexandre - O Grande e Ray Charles) desde a infância até o ápice de sua vida. As duas personalidades são mostradas a partir do relacionamento com suas mães até o momento em que morrem. Ray ainda ganha uma vantagem por ser atual e ter material iconográfico sobre sua pessoa disponível. Alexandre não. Um surge da mitologia e outro da era da reprodutibilidade técnica. Alexandre teve uma vida mais breve do que a de Ray, o que leva o astro negro a ter uma história mais condensada nas telas do que a do Rei da Macedônia. Mas, trata-se do mesmo filme. Ou melhor, do mesmo mau filme. Perverso.
 
CONSIDERAÇÕES GERAIS
 
Alexandre é ruim por se tratar de um show alegórico, uma disposição moderna da mitologia. A mesma estilização que levou Tróia a se tornar antes um filme de astro do que um filme de recriação. Os excessos nas atuações e nas maquiagens fazem com que Alexandre e seu companheiro, Hephaistion, pareçam travestis de Copacabana.
 
Ray consegue uma grande façanha que é não pintar os atores negros com óleos (algo que é constante em cineastas como Fernando Meirelles e Steven Spielberg). Mas infelizmente a fotografia não consegue se desvencilhar do tom publicitário que, volta e meia, aparece na fita. Compare as imagens da infância de Ray com as imagens dos anos 60 de Cidade de Deus. 
 
O que torna os dois filmes bastante maçantes é a maneira sistemática em transpor o mito para a tela, trazendo à tona sempre o mesmo sentimento nas platéias. Isso surpreende em Alexandre porque Stone criou de forma bastante eficiente e criativa a história de Jim Morrison, em The Doors, e a de Lee Harvey Oswald em JFK (de forma involuntária). 

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