O gasto do consumidor norte-americano, marcado pela crise do capitalismo mundial, ficou estável em abril, algo não esperado para o mês, mas a renda real disponível registrou o maior aumento em quase um ano com a melhora do mercado de trabalho e a inflação controlada, mostrou um relatório do governo nesta sexta-feira. O Departamento do Comércio dos Estados Unidos disse que o gasto pessoal foi o mais fraco desde setembro, quando caiu 0,6%. Em março, o gasto cresceu 0,6%. Analistas ouvidos pela agência inglesa de notícias Reuters estimavam que o gasto do consumidor norte-americano, que normalmente representa mais de dois terços da atividade econômica dos EUA, aumentasse 0,3% no mês passado.
Outro reflexo da crise também pode ser observado na declaração do governo da chanceler alemã, Angela Merkel, que cogita aumentar certos impostos em busca de consolidação fiscal, disse um jornal alemão nesta sexta-feira, citando fontes anônimas do gabinete. O déficit da Alemanha, maior economia da Europa, deve crescer para mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, em parte devido à reduções de impostos que o governo Merkel introduziu no início de 2010.
– Nós não estamos discutindo a implementação de um novo imposto, como um imposto sobre riquezas, mas um peso maior sobre um pequeno grupo de contribuintes – disse uma autoridade do governo ao jornal Handelsblatt.
De acordo a outras fontes da coalizão, o governo está reconsiderando descontos para o imposto sobre valor agregado de certos produtos. Contudo, membros do Parlamento alemão continuam a descartar qualquer forma de aumento de impostos, preferindo cortar gastos.
Margem de manobra
Comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da União Europeia, Olli Rehn, disse que os países europeus com margens de manobra maiores que da Itália podem esperar até o ano que vem para a consolidação fiscal, mas não mais que isso.
– Em geral, nós precisamos nos afastar da lógica de estímulo fiscal para a qual a crise nos forçou – disse Rehn em entrevista ao jornal italiano Il Sole 24 Ore, publicado nesta sexta-feira.
Ele reiterou o elogio aos cortes no orçamento da Itália e disse que o país, como outros, terá de intensificar os esforços nos gastos com aposentadoria. Perguntado se os cortes orçamentários serão suficientes para acalmar os mercados, Rehn disse que muito dependerá de como essas medidas forem implementadas.
As tentativas de redução dos déficits fiscais também ocorrem no âmbito da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os países-membros se comprometeram, nesta sexta-feira, a reduzir seu déficit sem prejudicar o crescimento, segundo uma declaração publicada no final de uma reunião ministerial na sede da organização em Paris.
"É importante desenvolver planos de consolidação orçamentária a médio prazo concretos e transparentes. Vamos aplicar isso de modo a não prejudicar o crescimento", afirmam os 31 países democráticos mais ricos do mundo nesse texto, distribuído a partir de Paris, onde uma série de manifestações têm ocorrido nos últimos dias, contra o arrocho econômico anunciado pelas autoridades. A OCDE revisou em alta na quarta-feira suas estimativas de crescimento nos países desenvolvidos, onde espera agora um aumento do PIB de 2,7% em 2010 e 2,8% em 2011, apesar de advertir que a dívida pública na Europa aumenta os riscos que existem sobre a economia mundial. As previsões anteriores eram de 1,9% para 2010 e 2,5% para 2011. Em 2009, o PIB dos países OCDE se contraiu 3,3%.
O documento, no entanto, adverte que a crise de desconfiança que atravessa a zona euro demonstra que "o período de grande instabilidade financeira que começou em agosto de 2007 ainda não terminou". A recuperação nos Estados Unidos e na zona euro será melhor que o esperado, mas o crescimento norte-americano, de +3,2% por ano em 2010 e 2011, tende a superar o dos países da Eurozona (+1,2% em 2010 e +1,8% em 2011), segundo analistas.