Uma disputa política, de fundo econômico e que visa a enfraquecer o governo de Evo Morales, presidente da Bolívia. Assim, dois especialistas brasileiros classificam a consulta popular marcada para este domingo.
Considerado inconstitucional pelo governo federal e sem o respaldo do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) boliviano, o polêmico ‘Estatuto do Estado Autonômico de Santa Cruz’ concede aos governantes do estado mais rico do país, próspero em petróleo e gás mineral, poder para legislar sobre questões fiscais e fundiárias, entre outras coisas.
— O que o movimento por maior autonomia quer é reter no estado uma maior quantidade de recursos. E, na visão do governo federal boliviano, isso inviabilizaria a maior parte de seus projetos —, diz o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Virgílio Arraes, para quem não há, no momento, condições políticas para a fragmentação da República boliviana, composta por nove estados.
Para Arraes, o projeto autonômico é mais uma etapa da acirrada disputa entre grupos políticos antagônicos.
— De um lado, está a elite tradicional. A mesma que, durante décadas, se beneficiou do sistema econômico e político então vigente. De outro lado, há a nova elite, que vem basicamente do movimente indígena. Eu compararia à história do cobertor curto. São duas elites puxando o mesmo cobertor —, disse.
A autonomia requerida por Santa Cruz, avalia Arraes, possibilitaria aos políticos da região não só manter a atual estrutura socioeconômica, como atrapalhar os planos de Morales e de seus partidários.
— A repartição dos recursos existentes é insuficiente para atender aos dois grupos. E se for feita como alguns estados querem, inviabilizará o governo Morales, repercutindo negativamente nas próximas eleições presidencial —, explicou.
Para o professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Coggiola, a aprovação do estatuto de Santa Cruz e de outras localidades que já manifestaram a intenção de fazer o mesmo transformaria o governo federal numa espécie de “marionete” dos poderes estaduais.
Para Coggiola, a questão de fundo é saber quem vai ficar com os lucros da exploração do petróleo e do gás mineral, reinvestindo-os de acordo com suas prioridades.
— É preciso lembrar que a Bolívia possui a segunda reserva natural de gás da América Latina, uma reserva muito fácil de explorar —, disse.
Coggiola acredita que, independentemente do resultado da consulta popular deste domingo, a situação política na Bolívia caminha em direção a “uma radicalização muito forte que só será decidida nas ruas”.
O professor sugere que a estratégia do governo federal de também convocar um referendo popular para verificar a posição da população sobre a eventual reforma da Constituição só vai acirrar o embate com grupos oposicionistas.
— Os referendos autonômicos departamentais e o constitucional apenas preparam o terreno para um enfrentamento muito mais acirrado, que vai ser decidido como historicamente sempre se decidiram as coisas na Bolívia. Nas mobilizações e contra-mobilizações populares —, afirmou.
A Assembléia Constituinte boliviana aprovou a reforma constitucional no final de 2007, sem a presença de parlamentares oposicionistas. Os governadores de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija reagiram imediatamente, ameaçando declarar a autonomia de seus estados.
Para entrar em vigor, a nova Constituição tem de ser ratificada por meio de um referendo nacional que ainda não tem data marcada para acontecer.
Consulta popular tenta enfraquecer governo de Evo Morales
Sexta, 02 de Maio de 2008 às 08:17, por: CdB