O resultado final do encontro entrou em choque com o que foi dito o tempo todo. O governo dos Estados Unidos saiu derrotado, porque a maioria absoluta dos países participantes condenou o decreto do Executivo norte-americano colocando a Venezuela como “país perigoso” para Washington.
Nesta história toda as publicações integrantes do chamado grupo Diário das Américas cobriram a VII Cúpula da mesma forma que os jornalões destas bandas. Houve, de fato, uma demonstração de subserviência ao desejo do Departamento de Estado norte-americano de condenar a Venezuela.
Uma pergunta óbvia: como pode um governo tentar se apresentar ou ser apresentado como “novo” ou “bonzinho” e ao mesmo tempo persistir com o decreto acusando a Venezuela como “perigosa” para os EUA? A novidade mesmo, que não houve, seria a revogação do decreto, como pediram representantes dos países participantes do encontro.
Enquanto deram grande espaço a Obama, o discurso de Maduro foi quase todo ignorado. Os espaços midiáticos conservadores não quiseram veicular, por exemplo, pelo menos o trecho do discurso do dirigente venezuelano assinalando que ao contrário dos Estados Unidos, a Venezuela nunca invadiu ou ocupou algum país, não podendo por isso ser considerado “perigoso” para quem quer que seja.
Para alguns pode parecer exagero ou mesmo teoria da conspiração a abordagem desse tema, mas não, até porque, a partir do que foi apresentado ao público latino-americano - leitor, ouvinte e telespectador - vendendo a imagem de que agora os EUA mudaram o relacionamento com a América Latina, não se descarta a tentativa de que grupos políticos conservadores tentem ressuscitar certas iniciativas sepultadas ao longo do tempo.
Nesse caso pode ser lembrada a recente advertência feita pelo ex-Ministro Celso Amorim sobre uma nova ofensiva neoliberal para ressuscitar a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).
Em artigo publicado no site Carta Maior intitulado “As Hienas os Vira-Latas”, Amorim exortou os intelectuais a se manifestarem nas ruas contra essa tentativa de ressuscitar a iniciativa sepultada em Mar Del Plata, na Argentina, em 2005, com a concordância de governos progressistas da região, entre os quais o brasileiro, uruguaio, venezuelano e o do próprio país anfitrião daquela Cúpula das Américas. .
No artigo, Amorim manda o recado para os intelectuais exortando-os a se prepararem para o debate que “vai ser duro e não se dará somente nos salões acadêmicos ou nos corredores palacianos, terá que ir às ruas, às praças e às portas de fábrica”.
Ultimamente, jornalões como O Globo divulgam com insistência editoriais defendendo uma reaproximação do Brasil com os Estados Unidos, algo, por sinal, que a publicação sempre defendeu ao longo de sua história.
Mas ligando os fios, a cobertura da VII Cúpula das Américas e os agora sucessivos editoriais enaltecendo a reaproximação, pode-se entender ainda melhor a advertência de Celso Amorim.
Por estas e muitas outras, todo cuidado é pouco, porque os espaços midiáticos conservadores da região não vão desistir tão cedo da ideia de ressuscitar a ALCA.
E se bobear, em alguma das manifestações convocadas, entre outros grupos, pelo Vem pra Rua serão vistos cartazes defendendo a ALCA. Se foram apresentados cartazes exortando a privatização da Petrobras e até o retorno dos militares, porque seria surpresa que a patota capitaneada pelo empresário Rogério Chequer promovesse cartazes favoráveis ao retorno da ALCA?
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançado no Rio de Janeiro.
Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
Conservadores querem ressuscitar ALCA
Por Mário Augusto Jakobskind - A mídia nacional e latino-americana de um modo geral cobriu a VII Cúpula das Américas, realizada recentemente no Panamá, de forma totalmente manipulada. O Presidente dos Estados Unidos foi apresentado como uma figura “muito boazinha” e “disposta ao diálogo”. Já o Presidente da Venezuela foi mencionado o tempo todo como “criador de caso” e “radical”.
Quinta, 23 de Abril de 2015 às 12:00, por: CdB