A luta pela terra é a causa do sofrimento de crianças e adolescentes indígenas em áreas distintas do país. Em Itajú de Colônia, a 500 quilõmetros de Salvador, cerca de 500 índios das etnias tupinambá e pataxó hã-hã-hãe ocupam uma fazenda, em protesto contra a decisão da Justiça de conceder a reintegração de posse aos fazendeiros da região. Do outro lado do Brasil, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, outros 500 índios, da nação guarani-kaiowá, definham à beira de uma estrada de terra, após serem expulsos das terras reivindicadas por posseiros da região, com requintes de violência por parte da Polícia Federal.
A mesma PF, agora no sul da Bahia, é de novo chamada a intervir na oitava tentativa de retomada das terras desde o início da semana. A situação permanecia tensa na manhã deste sábado e líderes indígenas ameaçavam com o corte de luz na região. Segundo Agnaldo Francisco dos Santos, representante da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Ilhéus, região do conflito, os policiais civis e militares estão proibidos de entrar nas fazendas devido à jurisdição federal do conflito. No entanto, o confronto entre índios e fazendeiros já significou o registro de dois casos de agressão.
Agnaldo Santos afirma que as terras pertencem aos índios desde 1936, por decreto federal, mas em 1960 o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), atual Funai, alugou as propriedades aos fazendeiros da região.
- Quando os índios reivindicaram o direito de posse das terras, os fazendeiros da região se negaram a devolver as propriedades. Em protesto, os índios ocuparam a área, mas a Justiça concedeu reintegração de posse aos fazendeiros - disse Santos a jornalistas.
Uma comissão integrada por representantes das partes envolvidas tem audiência marcada, nesta segunda-feira, com o presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, em Brasília. Também nesta segunda, pousa na mesa de Mércio Gomes o drama vivido pela tribo guarani-kaiowá. O coordenador regional da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Mato Grosso do Sul, Gaspar Francisco Hickman, foi afastado do cargo, neste sábado, por mau uso do dinheiro público.
Durante a expulsão das famílias das terras que ocupam há mais de 500 anos, uma índia abortou um feto de sete meses após ser agredida por policiais federais. O caso está em fase de investigação desde outubro do ano passado, sem que nenhum policial tenha sido punido ainda, apesar dos depoimentos claros de representantes dos indígenas. No pequeno terreno que ocupam, os barracos são de plástico preto, cobertos de capim, não há água tratada e a diarréia, febre e doenças respiratórias ameaçam dizimar as mais de 40 crianças da aldeia.
Reportagem da TV Globo mostrou, na tarde deste sábado, a situação em que vivem os guarani-kaiowás. O médico da Funasa Jamil Abraão apontou os principais males que atingem os índios.
- Doenças respiratórias e diarréia são os mais comuns - disse.
Uma criança bebia da mesma água onde a mãe lavava a roupa, enquanto outros mergulhavam no poço onde bebem os animais da fazenda onde deveriam ser as terras demarcadas por outro decreto federal que, na realidade, transformou-se em apenas mais um ponto na miríade em que se tranformou a questão da sobrevivência das tribos mais antigas da América Latina.
Os guaranis-kaiowás foram encontrados por bandeirantes, ainda em 1.600, na região do Mato Grosso do Sul. Eles ocupavam uma vasta área no entorno do Pantanal e no Paraguai, mas desde o século passado vêm perdendo espaço para a fronteira agrícola. Em 2002, o governo federal reconheceu as terras de uma fazenda local como área indígena e os poucos remanescentes se mudaram para o local. Em dezembro do ano passado, há apenas alguns dias para o Natal, a Justiça suspendeu o processo de demarcação e os índios foram despejados.
Sem terras e com apenas alguns pertences pessoais, a tribo foi expulsa do terreno e deixada à própria sorte às margens de uma rodovia. A Funai chegou a