Em apenas uma semana, mais de 300 pessoas morreram durante confrontos no Quênia que se seguiram à polêmica eleição, realizada em 27 de dezembro. A informação foi levantada por grupos de defesa dos direitos humanos em atuação no país. "De acordo com diferentes fontes independentes, mais de 300 pessoas foram mortas desde as eleições de 27 de dezembro de 2007", afirmaram a Comissão de Direitos Humanos do Quênia (KHRC, na sigla em inglês) e a Federação Internacional pelos Direitos Humanos (FIDH).
O governo do presidente Mwai Kibaki acusou na quarta-feira os defensores do rival Raila Odinga pela explosão de violência que tomou conta do país após o anúncio da reeleição de Kibaki no pleito presidencial.
- Partidários de Raila Odinga estão envolvidos em limpeza étnica. Não queremos que isso manche a reputação de Odinga, que ele seja visto como responsável pela condução de limpeza étnica - disse Alfred Mutua, porta-voz do governo.
Os simpatizantes de Odinga, especialmente da tribo luo, já fizeram acusações semelhantes contra Kibaki, cujo grupo, os kikuyus, domina a política e a economia da maior potência africana.
Pedido de calma
"Há relatos independentes de sérias irregularidades no processo de apuração", disseram o ministro das Relações Exteriores britânico, David Miliband, e a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, em comunicado conjunto, sobre a eleição do dia 27 de dezembro. Eles pediram o fim da violência e o início de um "processo político e legal" para acabar com a crise.
A turbulência provocou atrasos e confusão nos mercados locais. Leilões de café e de chá foram adiados. Kibaki está sendo acusado de fraude eleitoral. Na terça-feira, cerca de 30 kikuyus morreram quando a igreja em que eles tinham se abrigado foi incendiada, na cidade de Eldoret, fazendo lembrar os massacres em igrejas que marcaram o genocídio de 1994 em Ruanda. O ataque de Eldoret foi um dos piores episódios da onda de violência que já desalojou quase 100 mil quenianos, que em boa parte fugiram para Uganda.
Em meio ao caos, houve informações de que o chefe da comissão eleitoral queniana, Samuel Kivuitu, teria questionado a vitória de Kibaki. Foi Kivuitu quem anunciou no domingo a vitória de Kibaki. Não havia sido possível confirmar a declaração.
Países do Ocidente advertiram seus cidadãos a evitar o Quênia, uma popular atração turística. O país era considerado uma das democracias mais estáveis da África. O presidente da União Africana, John Kufuor, era esperado no Quênia na quarta-feira, e o premiê britânico, Gordon Brown, fazia a mediação por telefone.
Fuga em massa
Dezenas de milhares de quenianos deixaram suas casas nos últimos dias para fugir da onda de violência que tomou conta do país africano desde as eleições presidenciais realizadas na última quinta-feira. Os confrontos se intensificaram a partir de domingo, quando foi confirmada a reeleição do presidente Mwai Kibaki. A onda de violência é considerada a pior registrada no país nos últimos anos.
Agências internacionais de ajuda humanitária alertaram que o país se encaminha para uma catástrofe caso os confrontos continuem.
Queimados vivos
O pior incidente ocorreu na cidade de Eldoret, no oeste do Quênia, onde pelo menos 30 pessoas, entre elas 25 crianças, foram queimadas vivas na manhã desta terça-feira dentro de uma igreja. Na hora do ataque, estavam dentro da igreja cerca de 400 pessoas que se refugiavam da violência nas ruas da cidade. Uma multidão cercou o prédio e ateou fogo. O pastor Jackson Nyanga disse à rede inglesa de TV BBC que muitas pessoas foram espancadas antes que o prédio fosse incendiado.
As pessoas que se refugiavam na igreja pertenciam ao grupo étnico Kikuyu, o mesmo do presidente Kibaki. Segundo correspondentes da BBC no Quênia, a região de Eldoret tem um histórico de tensão entre diferentes grupos