Concurso público com ideologia no Banco do Nordeste
Por Urariano Mota - Comento a denúncia de Geraldo Galindo, diretor da Associação dos Funcionários do BNB, divulgada no Blog do Miro e no Vermelho: “O Banco do Nordeste do Brasil, instituição de fundamental importância para o desenvolvimento da região nordeste, cujo sócio predominantemente majoritário é o governo federal, realizou concurso público no dia 09 de Junho. A FGV Projetos, unidade de assessoria técnica da Fundação Getúlio Vargas que organiza concursos públicos para diversas empresas país afora, foi a contratada.
Prova de Português do Banco do Nordeste, no concurso público aplicado pela Fundação Getúlio Vargas, tinha orientação política
Comento a denúncia de Geraldo Galindo, diretor da Associação dos Funcionários do BNB, divulgada no Blog do Miro e no Vermelho: “O Banco do Nordeste do Brasil, instituição de fundamental importância para o desenvolvimento da região nordeste, cujo sócio predominantemente majoritário é o governo federal, realizou concurso público no dia 09 de Junho. A FGV Projetos, unidade de assessoria técnica da Fundação Getúlio Vargas que organiza concursos públicos para diversas empresas país afora, foi a contratada.
Em qualquer concurso sério, as provas não devem em hipótese alguma induzir o concursado a uma determinada posição política, a uma determinada ideologia - isso é básico, elementar. O debate político e ideológico cabe em outra esfera - na disputa política na sociedade, nos meios de comunicação, no debate entre partidos e entidades da sociedade civil, nas eleições etc. Agora, utilizar-se de um concurso público para fazer proselitismo em favor de uma corrente política – no caso aqui a oposição aberta ao governo federal e ao PT –, não é somente grave, é um crime, uma provocação inaceitável sob todos os aspectos. O episódio que cito neste momento, se fosse verificado em alguma prova com conteúdo em favor do PT ou do governo – o que também seria inaceitável -, provavelmente ganharia denúncia de repercussão nacional na nossa mídia monopolista e colonizada, mas como se tratou de uma propaganda em favor da direita brasileira, não foi objeto de comentários. Não devemos descartar até ter ter uma CPI pra investigar os responsáveis pela transgressão.
A prova para analista bancário começa com um artigo de Carlos Heitor Cony...”.
E aqui paro a cópia da excelente denúncia de Geraldo Galindo. Interrompo porque pesquisei, fui à prova mesma, conferindo o gabarito, que a Fundação Getúlio Vargas cravou como o certo.
De passagem, devo anotar que o método adotado nessa prova, é, de um modo particular, o que os norte-americanos adotavam no treinamento de recrutas na guerra do Vietnan. Ou seja: brutalização e condicionamento, enquanto o leitor é distraído, porque tem o seu olhar desviado para outro lugar.
Isso, de resto, é feito pela televisão, pela publicidade, pelas telenovelas, que nos vendem um modo de vida gerador de infelicidade. A saber: torna mercadoria tudo que é sentimento ou afeto. É o mesmo processo em que a desigualdade racial, a luta entre explorados e exploradores deixa de existir, e só existe a igualdade ideal ou mágica.
Note-se, por fim, que nem mesmo no período da ditadura tivemos concursos públicos em que se exaltasse o anticomunismo, conforme era a ordem unida dos quartéis e nos ditadores. Pois agora temos provas que disfarçadas de língua portuguesa induzem o estabelecimento de raiva contra os “petistas” e esquerda em geral.
Mas vamos ao específico do concurso: a prova de língua portuguesa, do concurso do Banco do Nordeste do Brasil, organizada pela Fundação Getúlio Vargas, organizou 20 questões e foi toda ideológica, da qual destaco algumas a seguir.
Ela começa com um texto “exemplar” de Cony, para que os candidatos interpretem pela aceitação de antipetismo e oposição ao governo. Pinçamos:
“Este ano, a tônica foram as vaias que os camaradas deram às autoridades federais, estaduais e municipais. Com os suculentos escândalos (mensalão, Petrobrás e outros menos votados), as manifestações contra os 12 anos de PT, que começaram no ano passado, só não tiveram maior destaque porque a mídia deu preferência mais que merecida aos 20 anos da morte do nosso maior ídolo esportivo.
Depois de Ayrton Senna, o prestígio de nossas cores está em baixa, a menos que Paulo Coelho ganhe antecipadamente o Nobel de Literatura e Roberto Carlos dê um show no Teatro alla Scala, em Milão, ou no Covent Garden, em Londres.
Sim, teremos uma Copa do Mundo para exorcizar o gol de Alcides Gighia, na Copa de 1950, mas há presságios sinistros de grandes manifestações contra o governo e a FIFA, que de repente tornou-se a besta negra da nossa soberania”
Mas já chega. Que providências devem ser tomadas? Para esse caso específico, deveria ser a anulação da prova, do concurso, e encomendar a sua organização para uma universidade federal, séria, não comprometida com o ideário de Alckim, Serra e outros menos votados. E por fim, um aumento da crítica, de acompanhamento crítico dos concursos a que estão submetidos nossos jovens, quando precisam trabalhar e têm que passar pela concordância implícita, das provas, que lhes ensina que o governo da presidenta é corrupto e digno de vaias.
Já não basta a doutrinação anticomunista, atrasada, feroz, que a juventude brasileira recebe nas Escolas Militares em plena democracia. Agora, invadiram também os concursos dos jovens em sua vida civil.
Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.Direto da Redaçãoé editado pelo jornalista Rui Martins.
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