O conceito de eternidade adquire lógica quando referido à experiência do amor. Nada mais refratário ao mergulho no Inefável do que a tortuosa cadência do tempo. Isso vale para os místicos e os amantes. Proust fez do tempo a matéria-prima de sua obra e Stephen W. Hawking descreveu a história do tempo resguardando suas intuições religiosas no invólucro aristotélico que ainda paira sobre a Física moderna.O tempo urge e, portanto, produz ansiedade. Contém a revelação final de todos os nossos desejos, conscientes e inconscientes. Nada escapa ao seu desfecho, ainda que o provérbio italiano traga consolo ao apregoar que o amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor. Até na fila de banco o tempo tortura. Não nascemos para aguardar, e sim para desfrutar. Por isso a eternidade é a utopia do amor, pois nos introduz lá onde não haverá mais nenhuma espera, nem mesmo esperança, como alerta Dante.
O Brasil espera um novo governo. Já pressente, a partir das pesquisas eleitorais, quem será o próximo presidente, mas ignora os nomes da equipe de governo. Desafiada em sua vocação de pitonisa, a imprensa especula. Tenta adivinhar os coringas do baralho. Ora, o presidente, qual Sancho Pança prestes a governar uma ilha, poderá se eleger sem programa e equipe de governo, apenas respaldado em seu primeiro mandato. L'Etat, c'est moi, é o que, por enquanto, transparece na propaganda eleitoral que baniu o vermelho, cassou a estrela e riscou o nome do partido.
O tempo engendra, exige e julga. O presidente terá de anunciar sua equipe de governo, e como não trará ministros de algum laboratório genético, como as figuras de Blade Runner, não lhe restará alternativa senão fazer a nova canoa com velhos paus, salvo honrosas exceções. Haverão de atuar como protagonistas homens que acolitaram a ditadura militar, o governo Sarney, os partidos pelegos que jamais sinalizaram qualquer mudança da estrutura social brasileira e por isso sempre foram alvos de severas críticas do PT?
Aos tecnocratas gerenciadores dos interesses do grande capital toca a terrível incumbência de realizar a alquimia de minorar a sorte dos mais pobres sem molestar os mais ricos. Num país como o Brasil, tal milagre tem sido possível graças à vastidão da miséria. Qualquer bolsa ou benefício, ainda que represente a minguada quantia de R$ 95, é recebido como valioso salário. Por isso não será impunemente que o governo tentará desvincular a Previdência do aumento do salário mínimo.
Tudo indica que sem o respaldo dos segmentos conscientes e organizados da nação, o governo Lula permanecerá nos braços dos credores da dívida pública, embora dê continuidade à política externa progressista e ousada. É claro que, para o bem de todos e a felicidade geral da nação, seria muito melhor que ele adotasse duas ou três medidas repetidas em suas campanhas, como a auditoria da dívida externa e a reforma agrária. Contudo, o tempo ensina que, em política, as alianças partidárias falam mais alto do que as intenções. E o Evangelho (Mateus 6, 24 ) adverte que ninguém pode servir a dois senhores: a Deus (Senhor da Vida) e às riquezas (artífices da Morte).
Esse compasso de espera leva a nação a desconfiar de sua própria competência de mobilizar-se para pressionar o eleitorado a renovar o Congresso Nacional e o poder público a realizar reformas que livrem nossas administrações de medidas cosméticas que sequer arranham as estruturas perversas que perenizam o latifúndio, o desemprego, o sucateamento da saúde e da educação, a violência urbana e o narcotráfico.
Mas não nos resta alternativa senão votar com consciência e agir em coerência com a ética e a certeza de que um outro Brasil é possível, desde que submetido a uma profunda reforma política que aprimore o controle popular de nossas instituições. E sobretudo se o nosso voto for acompanhado e complementado por nosso apoio aos movimentos sociais críticos ao neoliberalismo.
Frei Betto