Rio de Janeiro, 26 de Maio de 2026

Como sobreviver de cinema no Brasil

Segunda, 16 de Maio de 2005 às 21:28, por: CdB

Um jovem cinéfilo resolve filmar um curta-metragem. Ao entrar em contato com um professor de cinema decano, é advertido por este:
 
- Já que você está pensando em entrar nesse meio, vou te falar. Se prepara que você vai gastar mais do que ganhar. Na maioria das vezes é assim.
 
Se o cinema é uma atividade, na maioria das vezes, dispendiosa, que só traz prejuízos, qual o prazer em fazê-lo? Grandes cineastas sempre vieram de famílias ricas. Aqui no Brasil, os maiores sucessos de público recentes vêm de cineastas/ produtores ricos (Walter Salles, Fernando Meirelles, Barretos, turma da Conspiração). O que faz um cidadão comum querer se aventurar então na indústria cinematográfica brasileira? O título mais exato deste texto talvez fosse Como NÃO sobreviver de cinema no Brasil.
 
Desde que o governo Collor acabou com a Embrafilme e a indústria da dita Retomada ressurgiu através do esquema de patrocínio cultural pelas Leis de Incentivo, o cinema brasileiro começou uma nova era. O ritmo de produção mudou. A partir dos filmes da Retomada, os produtores captam a quantia já pré-estabelecida e aprovada pelo Ministério da Cultura e fazem seus filmes. Com isso, mudou toda a relação econômica produto-consumidor. O filme brasileiro não mais precisa se pagar. O produtor, sem dúvida, é o maior beneficiado. Nunca vai sair no prejuízo se seus filmes forem um fiasco de público. O cinema, apesar de tudo, poderia ser visto então como algo lucrativo... lucrativo?
 
As pornochanchadas levavam quatro milhões de espectadores ao cinema. A fita era feita com péssimos recursos, mas gerava uma bilheteria milionária. O ator-produtor da época Carlo Mossy, explicou como funcionava de forma bastante rápida em um cineclube há uns dois anos atrás.
 
- A gente ganhava uma cobertura em Ipanema com um filme. Daí, pra fazer outro filme, a gente vendia aquela cobertura, ficava duro e voltava a comprar outra cobertura com o dinheiro da bilheteria desse outro filme.
 
Com a Retomada, esse esquema não existe mais, parecendo até primário. O produtor não vende uma cobertura para bancar um filme. As empresas o pagam através das Leis de Incentivo. O produtor vira um mero funcionário da engrenagem burocrática. O cineasta Ozualdo Candeias, ícone da Boca do Lixo, desaprova o novo esquema.
 
- Não tem mais graça fazer cinema no Brasil porque não tem mais risco. O produtor não tem mais o risco se o filme não for bem na bilheteria. Ele não sai perdendo ou ganhando. Essa que era a graça de fazer filme.
 
Não à toa, Candeias não filmou nem um filme com leis de incentivo. Seu último longa é de 92. Quando o encontrei, no final de 2003, de onde esse depoimento foi tirado, o cineasta tentava viabilizar alguns projetos pessoais. Um deles era um documentário fotográfico sobre a história de São Paulo, que até onde escrevo, não tenho notícias de ter sido concluído. Os projetos eram bancados pelo próprio Candeias, sem leis de incentivo.
 
O produtor que começou a trabalhar com cinema nos anos 90, após o sucesso colossal de Carlota Joaquina, de Carla Camuratti (filme que marca o início da retomada e que, curiosamente, não foi feito com leis de incentivo), talvez desconheça os mecanismos antigos. Os exibidores nem sempre foram tão organizados e as distribuidoras tão especializadas. Em outros tempos, o diretor/ produtor que finalizava seu filme e procurava uma sala para exibi-lo negociava diretamente com o exibidor. Foi o que aconteceu por exemplo com os filmes do Cinema Novo, Marginal e Pornochanchada.
 
Agora o produtor negocia com uma empresa distribuidora que, invariavelmente, vai vender o filme para os grupos exibidores. O leitor vai pensar que com toda essa profissionalização, o cinema brasileiro só ganhou e levou mais gente para os cinemas, certo? Errado. A bilheteria dos filmes da Retomada até hoje tem uma média fraca. Apenas um ou dois filmes brasileiros fazem sucess

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