Como no filme, ou na vida real – e vice e versa – o combate às milícias será o desafio das próximas décadas
03/02/2011
Adriano Dias
Para além da espetacularização da violência e ufanismo que quase santifica os integrantes do BOPE, como no primeiro filme, o Tropa 2, em especial, me trouxe a inquietação de quem estava sentado em uma poltrona de pregos – mas de cinema... É, esse eu vi primeiro no cinema. Daquelas que tem uns pregos mais pronunciados que me faziam pular sempre que o filme me remetia a um jogo de referências com fatos acontecidos e personagens reais dos quais fui um expectador perto demais. Quase “onde está”, melhor, “quem é o Wally”. Tive que rever o filme para detectar detalhes que deixei passar neste jogo de “quem é fulano”, “qual foi o fato”, “que lugar é retratado”.
Logo de início, a referência ao nosso “11 de setembro” (de 2002 – quando uma rebelião no Bangu 1, comandada pelo traficante Fernandinho Beira-Mar, foram chacinados com requintes de crueldade presos de facções rivais) me provocou profundo incômodo, pois nesta época trabalhava na ALERJ, e relativamente de perto, acompanhei os acontecimentos. Pronto, fui colocado na cadeira do Faquir.
Por outro lado, a infantilização das esquerdas, dos movimentos de direitos humanos, com suas reflexões elocubrativas, denuncistas, de mera exposição de números, feito pelo até então ingênuo personagem, professor de história, alterego do Marcelo Freixo (que neste momento aparece na película), expõem o quanto é inoculo, e até ridículo, aqueles que contextualizam demais e agem de menos. Ou seja, enquanto a situação é de caos, pessoas morrendo, nós discutimos conceitos e estatísticas... Ui! Outro prego.
Em uma terceira linha, a principal do filme, a consolidação das milícias como a mais nova facção criminosa do Rio. Engraçado, me lembrei de um colega, sargento da polícia militar, que em 2001 falou: “Vou te levar num baile no Castelo das Pedras, nois (os policiais) tem até camarote, é cheio de mulhé!”. Na época eu achei até legal os caras poderem ir a um baile em favela. Ai! Outra espetada... Santa ingenuidade, Batman!!! (Ops!)
Em uma quarta linha: a violência umbilicalmente ligada ao poder político. Quem é da Baixada Fluminense conhece esta relação histórica na região: taxa de proteção (que depois viraram as empresas de segurança privada), exploração de serviços e por fim controle político de territórios pelo medo, pela morte. Basta ver os integrantes de grupos de extermínio que hoje são deputados e prefeitos. Apesar de terem modus operandi diferentes. Acredito que as milícias de hoje são uma sofisticação dos grupos de extermínio de ontem. Apesar, deve-se destacar, de que na prática são coisas diferentes: grupo de extermínio é grupo de extermínio, milícia é máfia com longas garras cravadas em várias instâncias de poder estatal.
No Tropa 2, e na vida real, mais recentemente encontramos o deputado estadual miliciano, o secretário de segurança pública que se elege deputado federal com apoio das milícias e governador que tem como base política as regiões controladas por estes grupos e – no meio do filme me lembrei – apesar de não aparecer, alguns governadores foram até sócios dos esquemas criminosos controlados a partir da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro.
Por outro lado, temos o avanço na mudança na militância dos direitos humanos. Recordo-me de no início de 2007, um certo professor de história, agora deputado estadual, não conseguiu assinaturas suficientes na ALERJ para deflagrar a CPI das milícias e “botou a cara” no RJTV para denunciar os perigos que esta máfia representava para a sociedade. No meio do filme me lembrei de um colega, oficial do BOPE que estava trabalhando comigo na Secretaria de Prevenção à Violência de Nova Iguaçu, quando, na mesma época, somente questionei sobre este assunto na Baixada, ele disse: “Tá maluco! O Freixo não conseguiu sequer as assinaturas para a CPI, isto é um vespeiro!”. Somente no meio de 2008, quando uma equipe do jornal ‘O Dia’ foi torturada na Favela do Batan, na Zona Oeste, a CPI foi instalada e o jogo começou a mudar.
Como no filme, ou na vida real – e vice e versa – o ativismo nos direitos humanos está caminhando cada vez mais para os resultados efetivos. Não basta denunciar, temos que participar da desconstrução do que é nocivo para nossa sociedade.
Como no filme, ou na vida real – e vice e versa – o combate às milícias será o desafio das próximas décadas. Saem os traficantes, entra a máfia que, por mais que o ‘Tropa de Elite 2’ contribua imensamente para expor a nocividade destes grupos, mesmo de maneira velada, as milícias são mais palatável para classes políticas e sociais mais abastadas.
Quanto ao Capitão Nascimento, digo Coronel, acho que todo inferno astral que ele passa no Tropa 2 é problema espiritual. Depois de matar e mandar matar tanta gente, o mundo espiritual está cobrando a conta nesta encarnação. E quando desencarnar, o senhor Roberto Nascimento vai virar Exú-Caveira.
Adriano Dias é membro da ComCausa – Cultura de Direitos