Das experiências apresentadas durante a 32ª Sessão do Comitê Permanente de Nutrição das Nações Unidas, em Brasília, o estudo de caso brasileiro foi apontado como "o mais adiantado" no combate à fome e à pobreza. Segundo o secretário executivo do comitê, Roger Shrimpton, dos quatro países analisados - Angola, Bolívia, Brasil e Moçambique - a situação brasileira é a mais "favorável".
- As taxas de desnutrição de crianças são pequenas, se comparadas com Angola e Moçambique por exemplo. O Brasil tem produção de alimentos suficiente para atender a demanda por uma alimentação saudável. A questão, ao que parece, é criar soluções que garantam às comunidades carentes o acesso à renda e conseqüentemente à comida de boa qualidade - afirma.
Para ele, no que se refere às estratégias de combate à pobreza e à fome, pode-se considerar que o país avança ao adotar medidas de transferência de renda. De acordo com o estudo brasileiro, "uma política massiva de transferência direta de renda é a alternativa mais imediata para o enfrentamento do problema no Brasil."
Segundo o coordenador técnico da Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (Abrandh), Flávio Valente, o programa Bolsa Família é um avanço nesse sentido.
- Pesquisas indicam que 70% do dinheiro que essas famílias recebem dos programas, elas gastam com alimentação e, geralmente, com alimentação de uma qualidade melhor do que elas tinham antes - revela.
Para o secretário executivo do comitê, a troca de experiências tem proporcionado grandes avanços nos quatro países analisados. Segundo ele, "quando se começa a mostrar as dificuldades e os avanços outros caminhos aparecem".
Roger Shrimpton acredita que o Fome Zero é um conceito "muito bem desenvolvido", mas para que o programa brasileiro tenha um impacto maior é necessário complementá-lo:
- Existe uma necessidade que vai além daquela de dar o alimento ao pobre. A distribuição de renda no Brasil é muito desigual, então a tentativa do governo brasileiro de corrigir essa situação com transferência de renda direta é admirável. O que se precisa fazer é acoplar a ela outras medidas que protejam além dos vulneráveis economicamente, aqueles vulneráveis biologicamente, como as mulheres grávidas - destaca.
Segundo Shrimpton, já que o governo brasileiro está assumindo mundialmente a liderança em alimentação nutricional seria "muito importante para outros países uma ajuda do Brasil":
- O Brasil está se inserindo numa sociedade mais avançada, onde políticas de transferência de renda são condutas normais de governo. Além disso, o Brasil tem a vantagem de um histórico de programas de nutrição e alimentação riquíssimo. A atual situação institucional do país também é favorável, coisa que os outros países não têm. Por isso, acredito que o Brasil possa desenvolver um papel de apoio aos outros três países, especialmente Angola e Moçambique - afirma.