O comissário da União Européia para Cooperação ao Desenvolvimento, Louis Michel, começa na sexta-feira uma visita de três dias a Cuba, essencial para as relações com a ilha comunista, deterioradas em 2003 devido à prisão de 75 dissidentes.
Em uma nova política de diálogo com Cuba, a Europa tentará obter a libertação dos dissidentes, enquanto o governo cubano exige que o bloco modifique seu habitual voto a favor de moções contra o país na Comissão de Direitos Humanos da ONU, atualmente reunida em Genebra.
Cuba é anualmente questionada nesta comissão com resoluções geralmente promovidas pelos Estados Unidos, que, segundo o governo cubano, fazem parte da política de agressividade realizada há mais de 40 anos por Washington.
O chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, disse na quarta-feira que a visita de Michel, que desembarca em Havana na noite de quinta-feira, é "um testemunho do novo estado das relações bilaterais entre a União Européia e Cuba", e que o governo está disposto a um acordo em matéria de direitos humanos.
Entretanto, diplomatas europeus em Havana se mostram pessimistas com a possibilidade de que a visita do comissário leve à libertação dos dissidentes, que o governo qualifica como mercenários a soldo dos Estados Unidos.
Dos 75 dissidentes detidos em março de 2004, 14 foram soltos por razões de saúde. Familiares e organizações de dissidentes e direitos humanos exigem a libertação dos demais, entendendo que não cometeram delito algum.
"Os presos políticos são o principal obstáculo nas relações, e não estamos avançando", disse à Reuters um embaixador europeu que pediu anonimato. Ele acrescentou que o governo "não viu graça nenhuma" na reunião realizada na segunda-feira em Havana entre diplomatas europeus e um pequeno grupo de dissidentes.
O deputado social-democrata alemão Klaus Barthel, que visita Cuba como parte de uma comitiva parlamentar seu país, disse que não houve "mudança nenhuma" na posição cubana.
"Eles dizem que estão interessados em melhorar as relações, mas não vemos passos concretos. Até agora, não houve nenhum sinal de concessões", disse o parlamentar à Reuters.
Dentro do que a União Européia chama de "compromisso construtivo" com Cuba, Michel se reunirá com representantes do governo cubano e com opositores. Para o líder do grupo dissidente "Cambio Cubano", Eloy Gutiérrez-Menoyo, que lutou ao lado de Fidel Castro na revolução vitoriosa em 1959, a visita é uma grande oportunidade para o governo.
"O governo cubano tem diante de si a oportunidade de contribuir com uma solução nacional que nunca poderia ignorar a existência e a validade de uma oposição democrática verdadeiramente independente", afirmou ele em nota.
Questionado sobre a possibilidade de a UE voltar a impor sanções a Cuba caso não haja mais dissidentes libertados, o recém-empossado embaixador do bloco na ilha, Dino Sinigallia, disse que "deve se esperar o resultado da missão de Louis Michel para analisar a situação".
A União Européia suspendeu provisoriamente em janeiro por seis meses as sanções impostas a Cuba, que incluíam convidar opositores às festas nacionais nas embaixadas em Havana, limitar visitas de funcionários de primeiro escalão da UE e reduzir os programas de cooperação. A UE disse que reexaminará a política relativa a Cuba em julho de 2005.