Sem amarras. Assim pode ser definido o trabalho dos atores Miguel Thiré e Mateus Solano e do diretor Jô Bilac para a encenação de 2 P/ Viagem. As amarras não são inexistentes apenas no palco, onde Miguel e Mateus aparecem sozinhos o tempo todo, sem figurinos ou cenário. A ausência delas vem de muito antes, de janeiro de 2007 mais precisamente: da concepção do projeto, passando pelo período de ensaios até chegar à montagem final.
Em conversa com a Agência Rio de Notícias, o ator Miguel Thiré revelou o processo pelo qual ele e seus colegas passaram para viabilizar o espetáculo, que está de volta aos palcos do Rio, em temporada no Teatro Candido Mendes.
Logo no início da entrevista, Miguel faz questão de mostrar animação com a nova temporada e afirma que eles esperam ainda mais sucesso, sobretudo por estarem de volta a um palco que revelou comédias tão queridas do público carioca – foi no Candido Mendes que o fenômeno Cócegas, por exemplo, começou. Sobre a não utilização dos já tradicionais recursos cênicos, Thiré garantiu que isto não é empecilho para a boa conexão com o público:
– A peça tem uma linguagem forte, mas ao mesmo tempo é muito popular – afirmou.
2 P/ Viagem parte da premissa da Teoria do Caos, aquela que fala do chamado “efeito borboleta”, no qual uma mudança qualquer que ocorre no início de um evento gera uma reação em cadeia, com conseqüências que terão desdobramentos e por aí vai. Ao questionar nos palcos as razões para estes acontecimentos, Miguel revela não ter escrito o texto movido por qualquer crença sobre temas como destino, casualidades ou coincidências.
– Não estabelecemos essa relação de crença em relação a essas coisas. Acredito que tudo está interligado, na verdade. Nosso interesse pelo tema veio a partir da curiosidade e do potencial cômico que percebemos nele – disse o ator, que revelou que, antes de o texto final ficar pronto, dois foram jogados fora.
Divertir o público é a prioridade
Thiré contou também que a idéia da peça partiu dele, mas sempre com o pensamento de contar com Solano para dividir o palco. Quando o colega embarcou no projeto, eles chamaram o jovem Jô Bilac para a direção e tudo começou. Ao todo, foram nove meses de preparações, os quatro primeiros de pesquisa e os cinco últimos de ensaios intensivos. Daí veio a estréia no Rio, em setembro de 2007, na Casa da Gávea, depois uma temporada no próprio Candido Mendes, além de apresentações no Festival de Teatro de Angra, em setembro deste ano, e em cidades do interior e do litoral paulista.
Passado mais de um ano, o jovem neto de Tônia Carrero mostra que ter se juntado a seus também jovens amigos para colocar o projeto em prática valeu a pena. Sem os velhos medos das eternas dificuldades que envolvem fazer teatro no Brasil:
– Nós quisemos fazer a nossa comédia, criar algo nosso, no nosso próprio mundinho, mas sempre com a idéia de divertir o público. Quero que a peça agrade ao público e não ao diretor administrativo tal que vai dar dinheiro para que ele aconteça. Como artista, eu acredito muito nesse tipo de teatro e de iniciativa – pontuou o ator.
Os exemplos de que as iniciativas têm surtido efeito estão, literalmente, em exibição no circuito. Jô Bilac é também diretor e autor da elogiada Cachorro!, inspirada livremente no fascinante universo de Nelson Rodrigues, e que tem sido apresentada em algumas casas do Rio – a montagem também passou pela Festa de Teatro de Angra.
Com as passagens da peça por uma grande capital e por cidades do interior, Miguel disse não saber definir as diferenças entre as recepções dos públicos. Ou melhor, ele acredita que elas são, na verdade, praticamente inexistentes:
– A peça tem uma universalidade e nós quisemos fazer um espetáculo integrado a esse homem moderno e a essa velocidade do mundo contemporâneo. Ela é direcionada a quem está antenado a essa velocidade, que é quem vê TV, acessa a internet. Independente de onde for a apresentação, ela é muito bem entendida e aceita pelas pessoas – concluiu o ator.
2 P/ Viagem está em cartaz no Teatro Candido Mendes (Rua Joana Angélica, 63, em Ipanema) até 17 de dezembro, sempre às terças e quartas-feiras, às 21h. Os ingressos custam R$ 30,00.