A experiência do G-20 mostrou aos países em desenvolvimento que a única forma de medir força com os países desenvolvidos, na arena da Organização Mundial do Comércio, é através de coalizões estratégicas. Criado em 2003, na fase final da preparação para a 5ª Conferência Ministerial da OMC, em Cancun/México, o grupo uniu o mundo em desenvolvimento na defesa de interesses comuns na área agrícola.
O objetivo, alcançado, era evitar um resultado predeterminado em Cancún e abrir espaço para as negociações em agricultura. Representando quase 60% da população mundial, 70% da população rural em todo o mundo e 26% das exportações agrícolas mundiais, o grupo consolidou-se como interlocutor nas negociações agrícolas e colocou Brasil e Índia - líderes do G-20 - no centro da Rodada Doha, lado a lado com Estados Unidos, União Européia e Austrália.
- Apesar de tudo e de todos esta coalizão estratégica entre Brasil, China, Índia e África do Sul está aí há dois anos. Esta é uma novidade. Os grandes países do Sul estão se coordenando para negociar, como fazem Estados Unidos, Europa e Japão - analisa o economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp.
- Acho que estes últimos anos foram anos de grandes avanços na OMC do ponto de vista dos nossos interesses. De poucos acordos comerciais, mas de muitos avanços políticos - avalia.
Marcos Jank, presidente do Instituto de estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), comemora o que chama de nova geometria das negociações.
- Até a Rodada Uruguai, essencialmente você tinha Estados Unidos e Europa se acertando e propondo coisas, e os países em desenvolvimento sempre muito defensivos. Hoje você vê Brasil, Índia e China participando com muito mais efetividade deste processo e a gente tem muito a ganhar - afirma.
Jank acredita que coalizões em defesa de interesses comuns, nos moldes do G-20, são a única maneira dos países em desenvolvimento conseguirem mais espaço em uma organização como a OMC, onde as decisões são tomadas por consenso.
- Nenhum país pequeno consegue, individualmente, impor a sua vontade lá - assegura o especialista.
Ferreira Presser aposta no fortalecimento do G-20 e acredita que outros temas serão incorporados à pauta conjunta que hoje se restringe à Agrocultura.
- Os estados Unidos coordenam com Europa, Canadá e Japão todos os temas, não apenas Agricultura. Vamos ter que reproduzir isto. O G-20 é o sombra do QUAD. Este outro bloco, que sempre negociou entre si e comunicou suas decisões aos demais, hoje tem que negociar com o G-20 - reitera.
Com G-20 ou G-90, países unem-se para aumentar sua voz
Quarta, 25 de Maio de 2005 às 12:17, por: CdB