O número de pessoas deslocadas durante as quatro décadas de confronto entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não é exato. Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), são entre 2,5 milhões a 3 milhões de pessoas que tiveram de deixar suas casas para não morrerem. Umas foram acusadas de ligação com as Farc, outras de colaborar com os paramilitares, grupo de extrema direita inimigo dos guerrilheiros.
A tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru é o lugar para onde milhares dessas pessoas acorrem em busca de um lugar seguro, nas cidades de Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil). Segundo a Igreja Católica, são pelo menos duas mil pessoas na região. Quem conseguiu provar que era perseguido político, ganhou o status de “refugiado” e passou aos cuidados da Organização das Nações Unidas (ONU), o que se traduz em apoio financeiro, material e até recolocação em outro país.
Aos demais, restou a qualificação de “deslocados”, cabendo apenas uma ajuda por três meses do governo colombiano, tendo que sobrevier depois por conta própria. Quatro desses deslocados conversaram com a reportagem da Agência Brasil e da TV Brasil, dentro de uma igreja, em Letícia.
- As Farc me deram seis horas para eu ir embora, se não, iriam me matar. Fui declarado objetivo militar, com mais outras quatro pessoas. Só saímos eu e um amigo. Os outros três não acreditaram e à noite foram mortos - relata Adalberto Blanco, que deixou sua propriedade em Cajamar, no departamento de Tolima, e vive há cinco anos em Letícia.
- Eles queriam que eu fosse colaborador da Frente 51 das Farc, denunciando as pessoas que tivessem relações com o Exército ou os Paramilitares. Eu disse que não queria isso, porque tinha medo dos Paramilitares, que estavam em uma região próxima. Se eu fosse colaborador da guerrilha, me matavam a família.
Blanco conta que era marceneiro, estudava agronomia e tinha criação de gado, mas perdeu tudo e hoje sobrevive com a mulher e a filha da venda de pastéis pela rua. Para piorar sua situação, a esposa está doente há algumas semanas e ele parou de trabalhar, por não ter como preparar os pastéis. Aos 40 anos de idade, ele desabafa: “A guerra acabou com a minha vida. É muito difícil recomeçar tudo do zero”.
Para dar apoio aos deslocados, foi criada uma entidade em Letícia, a Associação de Famílias Deslocadas Nova Esperança, presidida por Jaime Cruz, ele mesmo uma vítima da guerra.
- O nosso trabalho é bastante difícil, porque em muitas ocasiões o apoio do governo não chega. Então temos que receber as famílias que chegam em situação crítica, providenciando alimentação, vestuário e alojamento - conta Cruz, que era comerciante na cidade de El Doncello, no departamento de Caquetá, dono de uma concessionária de motos e máquinas agrícolas.
- Quando os Paramilitares chegaram ao meu povoado, mataram todos que eles suspeitavam ter alguma ligação com as Farc. E as pessoas que não morreram, foram consideradas pelas Farc como colaboradoras dos Paramilitares. Aí eu tive que ir embora, pois já não havia mais segurança para minha vida - disse.
Cruz disse que não tem esperança de voltar para casa, pois sabe que vão matá-lo quando chegar lá.
- Eu fiquei sabendo que mataram recentemente o presidente do conselho municipal na minha cidade e não é o primeiro, já mataram muitos dirigentes. Eu prefiro ir para outro país ou ficar definitivamente em Letícia. Voltar, nunca mais - afirmou.
Outra organização de Letícia que ajuda quem foi expulso de seus locais de origem é a Associação das Famílias Deslocadas do Amazonas, presidida por Pedro Gutierrez Perez. Segundo ele, a principal dificuldade é o acesso à terra.
- O departamento do Amazonas [onde fica Letícia] é basicamente de proteção ambiental, o que impede a concessão de verbas do governo para os deslocados comprarem propriedades na região - explicou.
Entre