Rio de Janeiro, 18 de Agosto de 2026

Colecionador alemão se dedica à arte proscrita

Sábado, 29 de Janeiro de 2011 às 12:05, por: CdB

Tudo começou em 1985, quando o comerciante de antiguidades Gerhard Schneider se deparou com o espólio do pintor Valentin Nagel. Ele ficou fascinado pela individualidade de seu vocabulário formal expressivo-cubista, mas não encontrou, todavia, nenhuma informação sobre o artista na literatura especializada ou enciclopédia. Caso não tivessem sido encontrados documentos como uma carteira de estudante da "Escola de Artes Hans Hoffmann, Munique" de 1928, a obra e o nome do artista teriam sido esquecidos para sempre.

A princípio, Schneider considerou a falta de notoriedade do artista como um acaso. Porém, após tomar conhecimento do livro A arte da geração perdida, que o historiador da arte de Marburg Rainer Zimmermann escreveu sobre artistas proscritos, o tema não saiu mais de sua cabeça. Sua casa se tornou cada vez mais uma galeria para a arte que ninguém quis ver, somente porque os governantes assim o desejavam.

As obras de arte que Schneider encontrou e comprou ao longo dos anos valem agora milhares de euros. O destaque está para arte europeia e alemã. Trata-se de uma coleção de valor inestimável.

Exemplo mais conhecido: nazismo

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  'O vencedor', 1937, de Georg Netzband, faz parte do acervo de SchneiderO tema da arte banida ou proscrita é relacionado principalmente ao nazismo. Foram justamente artistas do expressionismo – como August Macke ou Max Ernst – que ajudaram no reconhecimento mundial da arte alemã no começo do século passado. O princípio de criação do expressionismo utilizava a linguagem formal reduzida ao essencial. Mas foi precisamente essa arte, considerada hoje como forma de expressão "tipicamente alemã", que os nazistas difamaram como "judaização" da arte alemã, acusando-a de "degenerada" e proibindo-a.

Através de censores da arte contratados pelo regime, os nazistas ordenaram que museus e galerias públicas se libertassem dessa "imundície artística". Em assim chamadas "exposições da vergonha", foram difamados artista e obra. O ponto alto dessa barbárie cultural foi a exposição Arte degenerada de 1937, realizada em Munique.

"Somente de museus alemães e galerias públicas, os nazistas confiscaram mais de 20 mil obras de arte 'degeneradas' de cerca de 1.400 artistas. Uma pequena parte dessas obras foi vendida a preços irrisórios no mercado internacional. E a maior parte tem de ser considerada hoje desaparecida ou destruída", resumiu Gerhard Schneider. Mas governantes que decidiam, segundo seu gosto, o que as pessoas poderiam ver ou não já existiam anteriormente, como existem ainda hoje.

Intervenções não somente em ditadura

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  Gerhard SchneiderAs últimas obras de arte pesquisadas por Schneider remontam à recente história da Alemanha. Também na Alemanha dividida, a arte continuou a ser influenciada politicamente. A arte não figurativa foi instrumentalizada no Ocidente contra o "Realismo Socialista" oriental. No Oriente, por sua vez, os artistas eram obrigados a colocar seu trabalho a serviço da ideologia comunista e do fomento da sociedade socialista. Aqueles, cuja obra não correspondia a essas normas, eram classificados como "representantes da arte apodrecida do capitalismo".

"Tanto no Leste quanto no Oeste, houve duras intervenções na cena artística, já que ali colidiam duas visões diferentes do mundo", disse Schneider. "Os artistas não respeitaram ao todo essa postura, e conseguiram de forma admirável impor, em parte, seu estilo até muito recentemente. Como, por exemplo, os artistas Irmgart Wessel-Zumloh ou Wilhelm von Hillern-Flinsch."

Há muito que a procura de obras de arte proscritas se tornou uma tarefa de vida para Gerhard Schneider. Tal busca tem por objetivo guardar e apresentar essas obras às próximas gerações. No final desse mês, Gerhard Schneider conseguiu realizar um sonho de vida: com apoio público, ele abriu em Solingen, no Oeste da Alemanha, o Centro de Arte Proscrita.

Autor: Peter Kolakowski

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