Com a criação do Conselho Superior do Cinema, instalado ontem pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, o cinema brasileiro vai passar por outra fase de experimentação. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) vai se transformar em Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), tendo com isso uma missão ainda maior, e mais abrangente. E ainda, a Ancinav vai ficar subordinada ao Ministério da Cultura. Uma vez que o Audiovisual foi para a Ancine, esses órgãos de cinema parecem que são nômades, estão sempre indo para algum lugar. De Brasília para o Rio, para agora voltar para Brasília de novo.
No discurso, Lula insistiu que é preciso quebrar o tabu de que os brasileiros não gostam dos filmes produzidos no país. Ele sustentou seu argumento dizendo que quando há qualidade as pessoas vão ao cinema, inclusive as mais pobres. Claro que ele sustenta sua afirmação em dois fenômenos isolados: Cidade de Deus e Carandiru (líderes recentes de bilheteria). Ele esquece que as pornochanchadas, que eram películas de qualidade questionável, levavam milhões de brasileiros aos cinemas (muitos milhões a mais do que Cidade de Deus e Carandiru, que estão inseridos em um mercado muito mais controlado do que o da época das pornochanchadas). Em tempo: as milhões de pessoas que lotavam os cinemas para ver O Poderoso Machão, A Viúva Virgem ou A Mulher Objeto, eram em sua totalidade de classe social mais baixa. Cidade de Deus e Carandiru levaram todas as classes ao cinema, mérito indiscutível. Mas um tinha uma linguagem estrangeira, com efeitos especiais acima do nível da produção nacional (encheu os olhos de uma população cinematograficamente miserável, nos padrões hollywoodianos). O outro, além de se passar em uma penitenciária, traz astros globais e também uma produção competente. Os dois tratam do bandidismo. A conclusão do presidente: "todo povo gosta de ser protagonista de suas próprias histórias". Então está explicado, o brasileiro é bandido.
Cinema nômade para público fora-da-lei
Cinema nômade para público fora-da-lei
Quinta, 12 de Fevereiro de 2004 às 07:33, por: CdB