O cinema latino-americano continua ganhando força na Austrália, como mostra o grande número de filmes em português e espanhol exibidos, na última semana, no Festival de Cinema de Sydney.
- Enquanto no ano passado nos centramos no cinema argentino, este ano trouxemos filmes do Brasil, Venezuela, Chile, México e Espanha - disse Lynden Barber, diretor artístico do festival.
O brasileiro Meninas, no qual Sandra Werneck acompanha a vida de quatro adolescentes grávidas em quatro favelas do Rio de Janeiro durante um ano, teve grande repercussão entre o público na Austrália.
- Entrevistamos 110 pessoas para fazer o documentário e acabamos filmando estas quatro meninas, mas vimos que suas vidas eram muito parecidas, extremamente vazias, e para que fossem interessantes para o público tivemos que nos aproximar muito delas e dar uma visão muito íntima - disse Gisele Câmara, assistente de direção de Meninas.
A intimidade exibida em Meninas provavelmente foi o que atraiu o público do festival, que lotou a sala nas duas projeções do documentário.
Além de Meninas, o filme Casa de Areia, de Andrucha Waddington, que este ano foi premiado no Festival de Cinema de Sundance, em Los Angeles, também teve espaço considerável no festival australiano.
O Brasil também esteve presente nas telas de Sidney em produções estrangeiras como Favela Rising - sobre o AfroReggae carioca - dos americanos Jeff Zimbalist e Matt Mochary, que no ano passado levantou o público das cadeiras no festival Tribeca de Nova York.
O Milagre do Candeal (El Milagro de Candeal), do espanhol Fernando Trueba, que retrata o projeto social da favela do Candeal, em Salvador, coordenado pelo músico Carlinhos Brown, também foi escolhido pelos organizadores do festival.
- O Brasil e a música brasileira atrai muito os australianos, tanto que na última hora resolvemos incluir mais uma produção que fará sua estréia mundial - disse o diretor artístico do festival.
Trata-se do documentário australiano Bossa Nova - The Sound that Seduced the World, dirigido por Greg Appel, e que acaba de ser editado esta semana para a exibição no festival, que acaba no próximo domingo após 14 dias de projeções.
Barber acrescentou que o aumento da oferta em Sydney diz respeito ao interesse das produções latino-americanas e à influência que cada um desses países exerce nas filmografias vizinhas.
- Os cineastas chilenos, por exemplo, estão sendo inspirados pelos argentinos -, disse Barber, afirmação confirmada à Efe pela chilena Alicia Scherson, diretora de Play.
Scherson, uma das convidadas do festival, afirmou que depois de assistir várias mostras internacionais pôde comprovar o interesse do público por filmes como En la Cama, o segundo longa-metragem do diretor chileno Matías Bize, ou Aura, do argentino Fabián Bielinsky.
- A reação do público aos filmes latinos foi muito boa - disse Barber, que fez uma menção especial ao polêmico filme venezuelano Secuestro Express, de Jonathan Jakubowics.
- Teve muito sucesso, fazia tempo que não víamos um trabalho venezuelano - disse Barber sobre o filme que vai fundo na problemática da pobreza.
A polêmica veio, no entanto, com a exibição. no sábado, da produção mexicana Batalla en el Cielo, uma co-produção com França, Alemanha e Bélgica dirigida por Carlos Reygadas.
- É um filme muito duro e algumas pessoas gostaram muito, enquanto outras detestaram. Mas esse é o objetivo de um festival, controvérsia e debate - disse Barber.