Quando a cineasta brasileira Kátia Lund foi chamada para participar do filme Todas as Crianças Invisíveis (All the Invisible Children), ainda inédito nos cinemas, não sabia que seu nome apareceria ao lado de figuras emblemáticas do cinema mundial como os diretores Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Ridley e Jordan Scott, Stefano Veneruso e John Woo.
É a primeira incursão internacional de Lund, de 39 anos, conhecida por sua atuação engajada contra a violência, o tráfico e pelo cumprimento dos direitos mínimos da infância e da juventude desde a gravação do videoclipe They Don't Care About Us, do superstar Michael Jackson, na Rocinha, de 1996, e seu primeiro documentário, Notícias de uma Guerra Particular, de1999, até a co-direção em Cidade de Deus, de 2002.
Produção italiana, o filme reúne sete curtas-metragens sobre crianças em situação de risco.
Somente na primeira exibição do filme, durante o Festival de Veneza no mês passado, os oito diretores conheceram todos os trabalhos.
- Nenhum diretor havia falado com o outro. Nós pensávamos que veríamos filmes completamente diferentes, mas, na verdade, todos juntos formam um filme só - afirmou Lund, que exibiu Todas as Crianças no Festival do Rio.
O co-produtor do projeto ao lado das italianas Chiara Tilesi e Maria Grazia Cucinotta e um dos diretores Stefano Veneruso, de 36 anos, que dirige um dos curtas, fala de Ciro, um garoto que mora num conjunto habitacional da periferia de Nápoles, na Itália e que assalta as pessoas na rua.
- É incrível percebermos que os problemas são os mesmos, que a infância e a juventude ainda convivem com situações precárias em todo o mundo - declarou Stefano.
O filme de Lund retrata a empreitada de Bilu e João, duas crianças que trabalham noite e dia como catadoras de latas de alumínio e de papelão nas ruas de São Paulo.
Os personagens são reais, se chamam Anawaqe e Vera, moram numa favela da região central da cidade e têm, ambos, 12 anos.
- Tive dois motivos para filmar em São Paulo. Estava fazendo um filme para o mundo. Não queria fazer nada piegas com aquela visão do Brasil que o exterior tem. São Paulo é uma cidade moderna e quis quebrar esse estereótipo falso do país. Também queria falar sobre reciclagem, pois o Brasil é o primeiro país do mundo em reciclagem de alumínio e o preço do produto é calculado em dólar, o que mostra que faz parte de um mercado internacional, inserido na economia global - explicou a diretora.
Ela passou vários dias no Jardim Ângela, periferia de São Paulo, visitando as casas de catadores e carroceiros, acompanhou as crianças pelas ruas e visitou os entrepostos onde o alumínio, o papelão e outros produtos são vendidos.
- Ninguém se vê como vítima. Até porque tem muito dinheiro envolvido nesse negócio. É uma situação cruel porque eles deveriam estar estudando em vez de trabalhar - comentou.
Criminalidade, violência, agressão física, trabalho infantil e irresponsabilidade dos pais são alguns dos temas que chocam, mas mostram a real situação na tela dos cinemas por meio dos curtas.
No primeiro, o argelino Mehdi Charef retrata a incursão de um grupo de crianças na guerrilha civil armada. Lideradas por um jovem de 21 anos, matam e morrem sem ter tempo para a infância, deixada de lado.
O segundo, do bósnio Kusturica, mostra um garoto cigano de 15 anos que vive numa prisão, mas se vê diante do dilema de sua liberdade, e a volta à criminalidade, ou da continuidade sob a defesa da instituição.
Em Jesus Children of America, o terceiro curta, o norte-americano Spike Lee mostra o preconceito além do preconceito, e também a irresponsabilidade dos pais em relação a Blanca, uma menina infectada pelo HIV.
Há ainda Jonathan, dos britânicos Jordan e Ridley Scott, em que um rapaz volta à infância para poder seguir a vida, tão desiludido por conta