Cerca de cinco mil partidários do ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri, que renunciou a seu cargo na última segunda-feira, manifestaram-se, nesta quinta-feira, em seu apoio pelas ruas de Dili, enquanto o país se recupera dos violentos incidentes da terça-feira.
Os manifestantes, que estavam em carros e caminhões, planejavam chegar ao Palácio das Ciências, sede da Presidência, para entregar um documento ao presidente Xanana Gusmão pedindo-lhe a anulação da renúncia de Alkatiri.
Segundo a imprensa australiana, o grupo não conseguiu entregar o texto por ter sido obrigado pelas forças australianas e neozelandesas enviadas a Dili a desviar seu trajeto por questões de ordem.
O contingente internacional revistou os participantes da passeata com o objetivo de garantir que eles entravam desarmados.
Embora não tenham ocorrido incidentes no início da manifestação, a agência australiana APP informou que os participantes foram vaiados por grupos contrários a Alkatiri.
Alkatiri renunciou ao cargo de primeiro-ministro na segunda-feira sob pressão de grandes segmentos da população, que o responsabilizam pela onda de violência que tomou Dili em maio. Desde então, trinta pessoas morreram e mais de cem mil deixaram suas casas. Muitas delas ainda permanecem abrigadas em campos de refugiados da capital.
A crise foi desencadeada pela expulsão de 600 soldados do Exército, que exigiam o fim da discriminação étnica na instituição.
Após pedir sua renúncia, que foi aceita por Gusmão, Alkatiri se dirigiu a seus seguidores, que haviam se concentrado nas imediações de Dili, para pedir-lhes que se manifestassem de forma pacífica. O discurso foi retransmitido pela televisão e deu início a uma nova onda de violência na terça-feira, quando grupos de jovens atacaram membros da Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), o partido governante presidido por Alkatiri.
Alguns grupos atacaram também os centros de refugiados de Dili, informou hoje a organização humanitária Caritas Australia.
- A violência é uma resposta a questões políticas, com facções pró e contra Alkatiri enfrentando umas às outras. A violência chegou a alguns campos de desabrigados internos - diz o comunicado.
O presidente Gusmão vem tentando reconduzir a crise desde a renúncia de Alkatiri. Ele anunciou a formação de um Governo provisório, cujo primeiro-ministro deve ser indicado pelo Fretilin.
Gusmão já advertiu que, caso não consiga formar o Governo provisório, dissolverá o Parlamento e convocará eleições antecipadas.
Outro problema é o comparecimento de Alkatiri, na sexta-feira, ao Tribunal de Distrito de Dili como testemunha no caso contra o ex-ministro do Interior Rogério Lobato.
O caso foi aberto após Vicente Railos da Conceição ter acusado Lobato e Alkatiri de fornecer armas para um grupo comandado por ele com o intuito de matar inimigos políticos do ex-primeiro-ministro.
O Timor Leste, ex-colônia portuguesa, foi ocupada pela Indonésia em 1975 e a luta armada pela independência não cessou até 1999, quando a ONU organizou um plebiscito que estabeleceu sua independência.
A vitória independentista foi contestada pelas milícias pró-Indonésia que, apoiadas pelo Exército invasor, mataram mais de mil timorenses e destruíram toda a infra-estrutura do Timor Leste.
O país se tornou independente em 2002 como o país mais pobre do Sudeste Asiático e com uma população profundamente dividida e traumatizada pela violência.
Cinco mil timorenses vão às ruas em apoio a Alkatiri
Quinta, 29 de Junho de 2006 às 08:03, por: CdB