Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Cidade natal de cardeal nigeriano aguarda conclave no Vaticano

Segunda, 18 de Abril de 2005 às 11:51, por: CdB

Em uma bifurcação no caminho que leva à exuberante paisagem do sudeste da Nigéria, um cartaz diz "Eziowelle por Jesus" e uma seta aponta o rumo para a calma cidade.

Com galinhas ciscando na terra vermelha, uma moto eventualmente passando e quase nenhuma outra atividade, Eziowelle está o mais distante possível dos corredores de pedra e das cúpulas pintadas da Cidade do Vaticano.

Mas nesta semana, os moradores de Eziowelle não estão dedicados apenas a Jesus, mas também ao cardeal local Francis Arinze, um dos 115 cardeais que entraram no conclave para eleger um sucessor de João Paulo II.

Nascido e crescido na região, Arinze, 72, é o quarto na hierarquia do Vaticano e é frequentemente mencionado entre os principais candidatos para se tornar o novo líder da Igreja.
Ele carrega as esperanças do continente mais pobre do mundo e seus simpatizantes dizem que suas origens humildes significam que ele defenderia a causa das nações em desenvolvimento e da África.

- Um papa africano abriria a África para o resto do mundo. Ele mostraria como somos na África e na Nigéria, que não somos todos ladrões, não somos todos corruptos, não somos todos maus - diz Ifeoma, 35, ao sair de uma missa em Lagos.

Como em muitas vilas africanas, a escola de Eziowelle é uma construção deteriorada sem janelas e com pouco material. Os alunos vestidos em uniformes rosa-choque caminham longas distâncias para chegar ao colégio em sandálias de borracha ou com os pés descalços.

- Se Arinze se tornar papa, este lugar vai ficar como um pequeno país ocidental e poderíamos ter o céu aqui na Terra - disse Veronica Obidike, uma mulher na faixa dos 60 anos que vende temperos no mercado central da cidade, formado por barracas de madeira e quiosques temporários.

Obidike disse que a empoeirada rua de acesso, que se torna um intransitável lamaçal na estação de chuvas, poderia ser pavimentada e que os serviços de água e outros itens de infra-estrutura que o Estado não conseguiu prover poderiam chegar finalmente a Eziowelle.

- Necessitamos de todas essas coisas. Queremos tudo o que é bom - declarou ela, vocalizando a crença generalizada de que um papa africano poderia levar a mudanças na África, da mesma maneira como o papa João Paulo II ajudou a encerrar o domínio do comunismo no Leste Europeu.

Nascido numa família animista na tribo Igbo, Arinze só foi batizado aos 9 anos, quando se converteu ao catolicismo.

Teólogo conservador que atacou a homossexualidade e a pornografia, Arinze trabalhou como consultor na Congregação para a Doutrina da Fé, o departamento do Vaticano que mantém o olho sobre a integridade doutrinária.

Antes de se mudar para Roma em 1985, Arinze passou 18 anos como bispo de Onitsha, uma cidade de comércio próxima a Eziowelle.

O legado conservador de Arinze permanece em sua antiga paróquia, a Igreja da Santa Trindade, onde as mulheres não podem entrar sem usar um lenço na cabeça.

No momento em que o conservadorismo católico enfrenta o desafio de permanecer relevante num mundo moderno, na Nigéria, o país mais populoso da África, as posições de Arinze são comuns.

Mas enquanto muitos nigerianos apóiam abertamente Arinze, a maioria parece fatalista sobre suas chances.

- Eu o respeito e o amo, mas não acho que o mundo está pronto para um papa negro. É apenas um sonho - disse o morador local John Bosco George.

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