Omomento atual da vida política brasileira tem provocado inúmeras consideraçõesa respeito do que constitui propriamente nossa vida nacional, de modo muitoespecial, nossa cultura política. O que tem gerado espanto é o fato de que foinecessária apenas uma ação um pouco mais firme no trato da corrupção paraprovocar o início de uma crise política. Nossos cientistas políticos apontamnormalmente para dois fatores que nos têm marcado através dos séculos de nossaexistência como colônia, império e república: o "patrimonialismo” e o "clientelismo”que são características herdadas do colonizador português e que persistem aindahoje no momento em que o Brasil desponta como potência emergente enquantofigura importante no novo cenário geopolítico de um mundo globalizado
O usoda categoria patrimonialismo para caracterizar nossa cultura política provém deautores ligados ao pensamento de M. Weber e o que se pretendia dizer com ela éque entre nós relações familiares são projetadas para a vida política de talmodo que se torna muito difícil uma distinção clara entre o público e o privadoou entre as normas abstratas do estado moderno e as práticas personalistas domundo familiar e privado. Neste contexto o aparelho estatal é visto eadministrado como extensão dos interesses privados. O clientelismo completa oquadro enquanto lógica da subordinação da política a troca de favores. NossoEstado, então nasceu, cresceu e continua oligárquico e patrimonialista eprecisa apelar para o clientelismo para se manter. O espetáculo dantesco que serepete aos nossos olhos hoje como confirmação da persistência destascaracterísticas é que quando o executivo tenta governar sem levar em conta osinteresses de sua base de apoio, surgem as pressões, ameaças descaradas deboicote e ruptura ostensiva da sustentação parlamentar do governofrequentemente justificadas como sendo fruto do compromisso com a democracia ea defesa das grandes causas relacionadas às maiorias empobrecidas. Nestecontexto não há propriamente lugar para o exercício da cidadania entendida comoação de cidadãos que se entendem a si mesmos com sujeitos de direitosuniversais.
Estarealidade aponta para o grande desafio de uma reestruturação profunda de nossasinstituições o que fica muito claro quando se compreende que o problema dacorrupção não se resolve simplesmente com a substituição de pessoas, mas exigeuma democratização radical do Estado brasileiro. É importante lembrar nestecontexto que ao longo das últimas décadas o movimento social tomou váriasiniciativas com o objetivo de alcançar esta meta. As mais importantes e talvezmais visíveis foram as lutas durante a Constituinte para que se configurasse umestado controlado pela sociedade e a serviço da erradicação da miséria e dasdesigualdades.
Osacontecimentos recentes mostram que o Estado ainda encontra enormesdificuldades na resolução dos grandes problemas estruturais de nossa sociedade,de modo especial os que se relacionam às grandes demandas populares em relaçãoà saúde, educação, ao acesso à terra urbana e rural, moradia, saneamento,segurança, destruição do meio ambiente. Percebe-se que o Estado em sua forma defazer política continua conservador, incapaz de enfrentar os que detêm o poderreal na sociedade o que o leva a utilizar mecanismos autoritários eclientelísticos manifestando os limites da democracia representativa. É gravepara nosso futuro que um seminário recente realizado em Brasília chegou àconclusão que a tão falada Reforma Política se reduz de fato a uma ReformaEleitoral e que, portanto, não é propriamente política o que faz que ela nãotoque na questão da incorporação das expectativas de nossa sociedade atual deimplementação de mecanismos de democracia direta e participativa. Que o povoseja o detentor último do poder permanece entre nós um ideal inatingível.