Uma criança morre de malária a cada 30 segundos na África. Poderia não ser assim se já houvesse sido adotada como política geral o uso de comprimidos utilizando o princípio ativo de uma erva chinesa, que curaria 95% dos casos da doença em três dias, com melhorias constatáveis em algumas horas.
A versão foi publicada na revista norte-americana Newsweek deste mês. O remédio já estaria disponível já a duas décadas, mas a ONU ainda não decidiu se irá adotá-lo. O governo do Quênia o adotou no mês passado, mas é muito cedo para poder verificar se efetivamente os resultados serão o que se imagina. A política da OMS (Organização Mundial de Saúde) é a mesma desde 1998 e consiste no ataque aos mosquitos transmissores com o uso de inseticidas.
Mas especialistas ouvidos pela revista dizem que esse tratamento fracassou. Em 2002, a taxa de mortes por malária teria aumentado 10%, e continua crescendo 3% ao ano, com a doença matando atualmente mais de um milhão de pessoas a cada ano, 90% delas na África. Apenas 2% das crianças africanas estão submetidas a tratamento, em parte porque 27% dos governos ainda cobram impostos para a compra do kit necessário para o tratamento.
O medicamento chinês foi extraído das folhas conhecidas como qinghao. O processo, realizado por químicos chineses nos anos 70 do século passado, tem demonstrado grande eficácia. Um professor da medicina tradicional na Universidade de Guangzhou, que aplicou o tratamento no Vietnã dos anos 90, diz que a China praticamente se livrou da doença. "É o melhor remédio do mundo no tratamento da malária", diz ele à revista.
O mesmo ocorreu em uma província da África do Sul. Trabalhadores da saúde pública espalharam DDT nas paredes interiores das casas e as clínicas trataram as vítimas da malária com o medicamento chinês - com o componente artemisinin, baseado na erva chinesa. Em 15 meses a taxa de infecção baixou em 75%, e hoje está restrita a apenas algumas centenas de casos por ano.
No entanto, a OMS continua a propor o tratamento preventivo. A organização aprovou o artemisinin em 2001, mas seus especialistas desincentivaram seu uso até 2002.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História