Com cordões de isolamento, vans e policiais à paisana, as autoridades chinesas impediram nesta sexta-feira qualquer protesto que lembrasse os 15 anos do massacre da praça Tiananmen (da Paz Celestial), temendo que mesmo a menor manifestação ameace o Partido Comunista.
A prosperidade proporcionada por três décadas de reformas econômicas reduziu o descontentamento político, e a maior parte dos poucos ativistas remanescentes de 1989 está sob prisão domiciliar, proibida de falar sobre as manifestações daquela época, as maiores contra o regime desde sua instauração, em 1949.
Carros de polícia percorreram constantemente a ampla praça Tiananmen, e agentes foram vistos jogando dois homens no fundo de uma van e interrogando três fotógrafos. Pelo menos sete outras pessoas foram levadas pela polícia ou afastadas para fora da praça.
Centenas de manifestantes foram mortos na noite de 3 para 4 de junho de 1989, quando os soldados do Exército de Libertação Popular, apoiados por tanques, abriram caminho a tiros pela avenida Changan, que estava bloqueada pela população, e enfrentaram estudantes para retomar o controle da praça.
Analistas dizem que a relutância do Partido Comunista em libertar ativistas daquela manifestação ainda presos é um sinal de como o regime duvida da sua capacidade de conter a dissidência.
Na noite desta quinta-feira, um homem solitário, na faixa dos 50 anos, fez um rápido protesto, ajoelhando-se para rezar junto ao monumento aos Heróis do Povo, no centro da praça. Ele foi retirado pela polícia, segundo um fotógrafo da Reuters.
"Observei três minutos de silêncio em casa porque não podia sair. Há mais de dez policiais do lado de fora", disse Jiang Qisheng, que foi negociador por parte dos estudantes em 1989 e passou 18 meses preso após isso. "Planejo acender uma vela hoje à noite", afirmou o dissidente de 55 anos à Reuters.
A polícia aparentemente estava recolhendo da praça todas as pessoas com roupas humildes, que carregassem sacolas ou tivessem aparência interiorana. Os milhares de turistas que passam pela praça - coração simbólico da China - não foram incomodados.
Um comerciante disse que os negócios não estavam bem "por causa das nuvens e da polícia". "É 4 de junho", explicou
Um homem de 65 anos contou que foi à praça na sexta-feira por curiosidade. "Você sabe que dia é hoje? Você sabe o que aconteceu aqui hoje em 1989. Eu só vim ver se tinha alguma coisa acontecendo."
As autoridades vêm silenciando ativistas democráticos e parentes de vítimas, colocando-os sob prisão domiciliar ou retirando-os de Pequim nesta época. "A polícia está na minha porta. Ela diz que se eu não concordar em não acender velas para lembrar as vítimas do 4 de Junho eu serei levado embora", disse por escrito Hu Jia, um ativista pelos direitos dos doentes de Aids, de 30 anos, que é uma das caras novas entre os dissidentes.
Segundo testemunhas, Hu foi levado sob custódia da polícia após escrever o texto.
Ligações para a professora aposentada Ding Zilin, mãe de um adolescente morto em Tiananmen, foram cortadas quando ela atendeu.
Jiang Yanyong, médico militar que revelou que a China estava ocultando casos da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) no ano passado e que escreveu ao Partido em fevereiro propondo uma reavaliação dos protestos de 1989, desapareceu junto com sua mulher, de acordo com uma filha do casal.
Analistas dizem que mudar a versão oficial sobre o protesto, considerado uma "rebelião contra-revolucionária", seria impossível no futuro próximo, por causa das implicações políticas.
A decisão poderia rachar o Partido Comunista e desencadear uma disputa de poder, porque alguns líderes envolvidos ou beneficiados pela repressão ainda estão no cenário.
Zhao Ziyang, expurgado da liderança partidária em 1989 por ser contra a repressão, tem 84 anos, a saúde precária, e está sob prisão domiciliar. Nesta sexta-feira, dois