Rio de Janeiro, 05 de Maio de 2026

China não está preocupada com o Brasil, dizem analistas

Quarta, 05 de Outubro de 2005 às 08:43, por: CdB

O anúncio do governo do Brasil de que deverá impor salvaguardas contra produtos da China não deve causar preocupação entre as autoridades chinesas, segundo analistas. A medida foi defendida pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, que retornou recentemente de uma viagem a Pequim. A iniciativa brasileira permitirá que setores que se sintam prejudicados pela concorrência chinesa possam pedir proteção através de cotas ou de sobretaxas.

- O governo chinês está mais centrado em restrições semelhantes adotadas por países com os quais tem maior volume de comércio, como a União Européia e os Estados Unidos - afirma Patrick Tilbury, editor-sênior da região asiática da empresa de consultoria Oxford Analytica, ligada à Universidade de Oxford.

O economista e investidor Peter West, da Piolim Investment minimiza qualquer possível crise existente entre Brasil e China:

- É preciso distingüir entre disputas maiores e menores. Nenhum dos dois países permitiria que isto se torne uma grande divergência.

No entender de Linda Yuan, economista da London School of Economics, ao reconhecer a China como uma economia de mercado, o Brasil colheu vantagens, mas também caiu em uma armadilha.

- Ao reconhecer a China, alguns laços comerciais entre os dois países foram facilitados. Mas isso também torna mais difícil argumentar que os chineses estão infringindo regras antidumping - diz a economista.

Sem efeito

Segundo Peter West, o efeito das possíveis salvaguardas brasileiras "quase não foi notado no mercado financeiro", o que, segundo ele, explicaria o fato de que a China não deverá impor retaliações a produtos brasileiros.

Mas ele acrescenta que "o Brasil não deve ir muito além" em quaisquer possíveis restrições contra a China, uma vez que o país depende da importação de têxteis e calçados chineses.

Segundo Linda Yuan, "quando o presidente Lula visitou a China, em novembro do ano passado, havia uma expectativa de que o comércio entre os dois países atingiria a faixa de US$ 20 bilhões nos próximos três anos. Agora, a sensação no Brasil é de que é improvável que esta meta seja atingida".

De acordo com a economista, cifras mais vultosas no comércio entre Brasil e China deverão ser obtidas, sim, mas os principais beneficiários devem ser os chineses.

- Os chineses deverão ter os maiores lucros, graças aos produtos que exportam. A questão é como manter uma parceria entre Brasil e China, que estimule o crescimento em ambos os países - diz Linda Yuan.

A economista acrescenta que "o crescimento da China tem sido fantástico desde que o país entrou para a Organização Mundial do Comércio e sofreu um aumento considerável dos têxteis e calçados que fabrica. Claro, fabricantes destes produtos em outros países irão sofrer os efeitos. Isso é fácil de notar, já que antes a China não participava desse processo".

Segundo Patrick Tilbury, "é desconfortável para ambos os países entrar em uma disputa. A China tem certa identificação tanto política como econômica com o Brasil e ambos exercem papel de liderança dentro do G-20".

Mas, segundo ele, parece que o Brasil não sente que foi tratado com a devida generosidade ao haver dado status de economia de mercado à China, como que o país fizesse "investimentos mais pesados no Brasil, possivelmente no setor de infra-estrutura".

Mas o economista afirma que o reconhecimento não foi um erro estratégico por parte do Brasil.

- Devido a fatores políticos, muitos outros países reconheceram a China como uma economia de mercado na mesma época. A China não crê que esteja demonstrando ingratidão, mas sim que existe hoje um novo cenário comercial diante dela.

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